Ecco
Não foi no dia dos Reis, mas não há azar. O Amigo do Povo está na blogosfera. Conta com a colaboração bloguista de Luís Aguiar Santos, Fernando Martins, Bruno Cardoso Reis, Ana Cláudia Vicente e João Miguel Almeida. Podem visitá-lo aqui. "E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta" - Álvaro de Campos eoesplendor@hotmail.com
Não foi no dia dos Reis, mas não há azar. O Amigo do Povo está na blogosfera. Conta com a colaboração bloguista de Luís Aguiar Santos, Fernando Martins, Bruno Cardoso Reis, Ana Cláudia Vicente e João Miguel Almeida. Podem visitá-lo aqui.
O novo blogue encontra-se em construção. Afinal não arranca no dia dos Reis, mas na próxima semana. A notícia e o link da estreia na blogosfera serão o remate de «E o Esplendor dos Mapas». Missão a cumprir: ultrapassar as tradicionais divisões entre blogues culturais e políticos. «O Amigo do Povo» tratará da Poética e da Política; reunirá a Esquerda e a Direita. O Povo nos julgará.
Depois da viagem pela Tanzânia continental, apanhámos o avião da «Tanzanian Airlines» para Zanzibar. Experimentámos o ferry boat para regressar e não há dúvidas: esta é a melhor maneira de se fazer transportar até à ilha. O voo é barato e confortável. Atrasou-se, é certo, mas, para consolar os passageiros, a companhia da Tanzânia ofereceu-lhes uma bebida não alcoólica. A TAP também se atrasa e não oferece nada.
Podem não acreditar, mas já fui humano. Um daqueles seres que rompem pelo planalto em jipes ruidosos. Páram quando avistam um animal de grande porte e entusiasmam-se quando descobrem uma chita, um leão deitado em cima de um rochedo ou um leopardo escondido sob a copa de uma acácia.
O acampamento «Arrow Glacier», a 4800 ou 4900 metros de altitude, garante rocha, nevoeiro e um vento que entra na carne como gumes e desfez a minha tenda. Ainda assim, foi a noite em que dormi melhor. Reunimo-nos numa só tenda para resistir melhor ao frio antes da escalada final. Deitámo-nos por volta das nove da manhã e acordámos à uma. A Ana decidiu voltar para trás. Eu, o Armando, o guia e um assistente, prosseguimos. Não tinha dores de cabeça, mas o corpo pesava-me. Subimos por uma rampa de pedras e sentei-me para apertar os atacadores. Não me conseguia levantar. O guia aconselhou-me a voltar para trás. Eram três da manhã e discutia com ele, argumentando que não tinha dores de cabeça e queria subir. «Se continuares podes prejudicar gravemente a tua saúde». Perante esta frase, decidi voltar. Pensei em tudo o que me esperava cá em baixo. Não foi desta que subi ao tecto de África.
Para trás fica «Lava Tower», a 4600 metros de altitude, com o seu acampamento que só com muita atenção se consegue descortinar nesta imagem. Aí sofremos a primeira baixa: Lukeria, a quem a altitude causara violentas dores de cabeça e náuseas que os analgésicos não conseguiam iludir, voltou para trás. Uma curta paragem permitiu a despedida emocionada. Tínhamos de chegar ao acampamento «Arrow Glacier» antes que a noite chegasse.
No quarto dia, partimos do acampamento «New Shira». Decidimos sair da rota Machame e tentar alcançar o topo de do Quilimanjaro por «Western Breach». A opção permitir-nos-ia, durante a subida, passar pela formação rochosa «Lava Tower» e, depois do acampamento «Arr ow Glacier», ver o vulcão da montanha ainda em actividade.
Acima dos três mil metros, alguns montanhistas começam a sentir sintomas mais leves ou mais pesados da doença de altitude - dores de cabeça e náuseas. A dúvida instala-se: vou subir até ao cume ? O pico Uhuru permanece uma imagem de serenidade - e no entanto os fenómenos naturais parecem projectar nele os sentimentos dos montanhistas: tão depressa surge sólido, seguro, à luz do sol, como se volatiliza atrás de uma nuvem.
A primeira viagem que fiz com o Armando foi de Inter-Rail, até Itália. Tinha-o conhecido em Lisboa, onde eu acabava o 12.º e ele um curso de engenharia. Nascera em Moçambique e cresceu em Guimarães. Depois de obter o canudo rumou a Braga, onde tentou organizar uma vida. Mas Portugal parecia-lhe cada ver mais pequeno. Um dia emigrou para a Austrália. Tirou uma bacharelato de enfermagem que lhe serviu para trabalhar com os aborígenes australianos, em Timor-Leste e na Arábia Saudita (durante dois anos). Actualmente exerce a sua profissão num hospital de Londres. Quando me convidou, no início do ano corrente, para subir o Quilimanjaro, juntamente com Ana, a namorada do Porto, e Lukeria, uma australiana de origem sino-russa, aceitei. Com entusiasmo.
Aproveito uma pausa, destinada a descansar e a comer, para tomar notas no meu caderninho Moleskine. Ao comprá-lo, em Lisboa, pensei tratar-se apenas de um fétiche de candidatos a escritores, esquecidos de que uma das razões que levou van Gogh ou Hemingway, no início da sua carreira, a comprar cadernos destes é que deviam ser muito baratos. Aliás, era o baixo custo de vida em Paris, no início do século XX, que atraía muitos norte-americanos. Mas no Quilimanjaro descobri o lado prático destes cadernos: facilmente se guardam num bolso das calças ou do casaco; podem recolher muitas notas se escritas a lápis e em letra miudinha; as capas duras e o elástico protegem as folhas. Escrever neles é mesmo escrever um livro. Um livro manuscrito, único, de capa dura, adequado para registar observações súbitas e para resistir ao tempo.
Pouco a pouco a floresta tropical vai cedendo lugar ao segundo tipo de paisagem, característico da montanha entre os 2800 e os 4000 metros de altitude. O termo inglês é «moorland». Gosto desta palavra com sabor a nevoeiro e filmes de Fritz Lang. Aceitam-se informações sobre a correcta tradução em português.
A floresta tropical é a primeira das quatro paisagens que o Quilimanjaro oferece. Um pouco atrás de mim vai Lawrence, assistente da expedição. O bastão de caminhada que seguro pode parecer estranho, mas é muito apropriado para subir um caminho enlameado. Nesta altura estava a pensar que, afinal, umas polainas davam jeito.
Por lei, os montanhistas só podem entrar no Parque Nacional do Quilimanjaro integrados num grupo com guia e carregadores. O limite de carga para cada carregador encontra-se fixado: 15 quilos. É um modo de garantir a sua integridade física e de aumentar oportunidades de emprego. Cada montanhista deve levar consigo uma pequena mochila com objectos pessoais: máquina digital (a minha pifou depressa), dinheiro e documentos, papel higiénico, biscoitos ou bolachas, etc. O meu bloco de notas ia num bolso das calças ou do casaco. Também levava lápis e afia.
O muro de cimento que ladeia os portões da rota Machame tem algo de misterioso. A sua utilidade é mais do que discutível, pois termina abruptamente ao fim de umas centenas de metros, sendo facilmente contornável. A sua função é antes de mais simbólica: quem o atravessou vai subir a montanha. A bagagem de jipes e carrinhas é descarregada. As viaturas encontram-se no ponto de chegada e os montanhistas no ponto de partida.
Uma das entradas para o Quilimanjaro, a da rota Machame. Do outro lado do portão, acumulam-se os homens tentando ganhar dinheiro com apetrechos vendidos à última da hora: chapéus, lenços, polainas, bastões de caminhada, coberturas destinadas à protecção das mochilas da chuva, etc. Chamam pelos montanhistas que aguardam na fila para escrever o registo obrigatório. Os preços são regateáveis. Com sorte, um deles ainda é contratado como carregador.
Já depois de ter resolvido fechar o blogue, chegou-me às mãos um CD-ROM com fotografias tiradas durante a minha viagem à Tanzânia. Decidi publicar um post-scriptum com as imagens e legendas. O meu primeiro objectivo era subir ao topo do Quilimanjaro e já sabemos que me fiquei pelos cinco mil metros. Esta é a crónica de uma derrota anunciada e da convicção de que, como escreveu Camus, «A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.»
Hoje à noite Cavaco Silva «quebra o tabu» anunciando a sua candidatura em nome «da estabilidade e da esperança». Resta saber que esperança é esta. Só o mais brilhante cronista português, Vasco Pulido Valente, este ano já viu em Cavaco «o novo João Franco», uma reedição do General De Gaulle e um simples «bom aluno». Em relação a quem nunca se engana e raramente tem dúvidas é uma esperança muito incerta.