2004 como Vontade e Representação
Não é uma discussão inédita. Já o terramoto de Lisboa, cujos dois séculos e meio se comemoram no ano que aí vem, levou Voltaire a protestar contra Deus. Mas a discussão só atinge Deus indirectamente, pois tendemos a vê-lo reflectido na sua obra, a qual, por definição, não é perfeita. O que terá chocado mais Voltaire seria a imagem desfeita de uma ordem natural benévola que caberia aos filósofos desvendar usando a Razão. Subitamente, a imagem cruel da Natureza do Marquês de Sade parece triunfar sobre a confiança que nela depositaram os iluministas.
A mim, o que me choca é que estas discussões sobre Deus se travem numa humanidade do século XXI que, olhando-se no espelho quebrado, vê apenas imagens distorcidas por guerra civilizacionais e religiosas. Num ano em que se venderam tantos livros sobre a figura de Cristo, parece ignorar-se que este definiu como primeiro mandamento «ama o próximo como a ti mesmo» e, interrogado sobre quem era o próximo, usou a parábola do Bom Samaritano. O próximo de Cristo é qualquer ser humano que pode socorrer um seu semelhante caído na estrada. E esta semelhança não se encontra na língua, na nacionalidade, na religião, na civilização. O meu semelhante é aquele que, tal como eu, pode sofrer, ter consciência desse sofrimento, ser socorrido na sua desgraça por mim.
Num tempo corrompido alternadamente por um optimismo delirante e um sensacionalismo mórbido, é refrescante ler Schoppenhauer, que se baseou no cristianismo para elaborar o cúmulo filosófico do pessimismo. Não para nos deixarmos limitar por este pessimismo, mas para perceber que é possível olhar para a realidade pela perspectiva das piores hipóteses – Deus não existe, a História não tem sentido – com uma exigência ética baseada na compaixão e sentimento de injustiça (a injustiça é a negação da vontade de viver).
Aprendendo a lidar com o lado pior da vida, construindo consensos em torno dos males que é urgente combater, podemos escolher sem angústia com que queremos viver bem e partilhar as nossas esperanças.
Faço votos que esse seja o caminho dos leitores deste blogue em 2005.
