E o esplendor dos mapas

"E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta" - Álvaro de Campos eoesplendor@hotmail.com

Nome: João Miguel Almeida
Localização: Lisboa, Portugal

Sexta-feira, Dezembro 31, 2004

2004 como Vontade e Representação

Um Portugal deprimido que via o próximo ano senão com esperança pelo menos com alívio, chega ao fim do ano confrontado com o horror multiplicado em milhares, milhões de rostos. O maremoto aconteceu na Ásia mas todos nós fomos atingidos. Enquanto os jovens reflectem, em Lisboa, no Encontro de Taizé, sobre o lugar de Deus e da espiritualidade cristã no mundo, a fervilhante blogosfera portuguesa entra numa discussão teológica a propósito do maremoto. Luís Rainha apresentou-o como prova contra Deus e Bernardo Motta saiu em defesa Dele.
Não é uma discussão inédita. Já o terramoto de Lisboa, cujos dois séculos e meio se comemoram no ano que aí vem, levou Voltaire a protestar contra Deus. Mas a discussão só atinge Deus indirectamente, pois tendemos a vê-lo reflectido na sua obra, a qual, por definição, não é perfeita. O que terá chocado mais Voltaire seria a imagem desfeita de uma ordem natural benévola que caberia aos filósofos desvendar usando a Razão. Subitamente, a imagem cruel da Natureza do Marquês de Sade parece triunfar sobre a confiança que nela depositaram os iluministas.
A mim, o que me choca é que estas discussões sobre Deus se travem numa humanidade do século XXI que, olhando-se no espelho quebrado, vê apenas imagens distorcidas por guerra civilizacionais e religiosas. Num ano em que se venderam tantos livros sobre a figura de Cristo, parece ignorar-se que este definiu como primeiro mandamento «ama o próximo como a ti mesmo» e, interrogado sobre quem era o próximo, usou a parábola do Bom Samaritano. O próximo de Cristo é qualquer ser humano que pode socorrer um seu semelhante caído na estrada. E esta semelhança não se encontra na língua, na nacionalidade, na religião, na civilização. O meu semelhante é aquele que, tal como eu, pode sofrer, ter consciência desse sofrimento, ser socorrido na sua desgraça por mim.
Num tempo corrompido alternadamente por um optimismo delirante e um sensacionalismo mórbido, é refrescante ler Schoppenhauer, que se baseou no cristianismo para elaborar o cúmulo filosófico do pessimismo. Não para nos deixarmos limitar por este pessimismo, mas para perceber que é possível olhar para a realidade pela perspectiva das piores hipóteses – Deus não existe, a História não tem sentido – com uma exigência ética baseada na compaixão e sentimento de injustiça (a injustiça é a negação da vontade de viver).
Aprendendo a lidar com o lado pior da vida, construindo consensos em torno dos males que é urgente combater, podemos escolher sem angústia com que queremos viver bem e partilhar as nossas esperanças.
Faço votos que esse seja o caminho dos leitores deste blogue em 2005.

Quinta-feira, Dezembro 30, 2004

Conselhos sobre maremotos

1.º CONSELHO CIENTÍFICO, sustentado pelos maiores especialistas e já divulgado na televisão:
1.Se estiver na praia e vir um maremoto afaste-se do mar.
2.º CONSELHOS AMADORES do autor deste blogue, sem qualquer credibilidade científica, mas com possível utilidade, aqui divulgados em primeira mão:
1. Se se dirigir de carro para a praia, com a segunda mudança metida, e vir um maremoto, adopte os seguintes procedimentos:
a) faça inversão de marcha (com atenção para não atropelar pessoas nem chocar com outras viaturas);
b) carregue no acelerador;
c) meta terceira, quarta e quinta.
2. Se for um surfista e, dirigindo-se para a praia com a prancha debaixo do braço, avistar um maremoto, adopte os seguintes procedimentos:
a) não tente apanhar a onda, pois tal seria EXTREMAMENTE IMPRUDENTE;
b) largue a prancha;
c) vire as costas aos mar;
d) corra o mais possível.
Em suma: PISGA-TE.

Quarta-feira, Dezembro 29, 2004

Eça por Eça

Quando escrevi o «post» anterior, citei de cor uma cena descrita por Eça de Queirós. Hoje passei algum tempo a folhear livros do Mestre para localizar o referido excerto e transcrevê-lo no blogue. Não encontrei o que buscava e encontrei outros textos não buscados, os quais vêm muito a propósito. Algumas circunstâncias do escritor mudaram, outras permanecem. E só Eça pode substituir Eça:
«O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: “Sede honrados”, e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.
Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas, Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.
O que nos magoa é ver que só há energia e actividade para aqueles actos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho.
Trata-se de votar impostos ? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados; as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projecto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar ? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas.
O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos.
Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano; “A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança das pessoas e de programas novos.”»
Textos do Distrito de Évora 2, Lisboa, Círculo de Leitores, 1980, pp. 138-139

Terça-feira, Dezembro 28, 2004

Mesmo aqui ao lado

Apesar de algumas parvoíces que ouvimos na televisão, as ondas do maremoto asiático invadiram a nossa alma. Há uma célebre crónica de Eça de Queirós descrevendo o impacto da leitura de notícias do mundo num grupo de lisboetas. O relato de um cataclismo nos confins mais longínquos da Ásia provoca alguma impressão, mas a notícia de que uma senhora das suas relações tinha «desmanchado o pé» causa alvoroço. Os ouvintes levantam-se imediatamente, dão alvitres, propõem-se visitar a pobre senhora. A globalização do século XXI tornou irremediavelmente histórica esta cena. Não há nenhum recanto do planeta que não seja um pedaço do nosso quintal. Não há sítio onde não possamos ter estado, vir a estar ou onde se possa encontrar neste preciso momento alguém que conhecemos. Todos nós habitamos a fina e cada vez mais familiar crosta sobre a grande esfera de fogo que é a Terra.

Segunda-feira, Dezembro 27, 2004

O sol ainda nasce em Phuket

Ao ouvir a música dos Vangelis a tocar no telemóvel, Madalena preparou-se para ouvir Júlia.
- Olá...
- Olá, Júlia, então passaste bem o Natal ?
- Sim. Óptimo. Obrigado. Reuniu-se a família toda. E o teu ?
- Excelente. Já passou. Agora só penso na passagem de ano, em Phuket.
- Sempre vais ? É capaz de ser perigoso. Viste as imagens do maremoto ?
- Sim, claro. Mas não tenho medo. Já tenho as viagens marcadas e o hotel pago. É um hotel que fica a três quilómetros da costa. Parece que não foi muito afectado. Tu não sabes como é que são os asiáticos: ultra-organizados e trabalhadores. Numa semana reparam os estragos.
- Acredito que sim...Mas passar férias no meio daquela desgraça toda ...
- Aonde é que queres chegar ? Os tailandeses são muito simpáticos. Estão sempre a sorrir. A Tailândia é a terra dos sorrisos.
- Certo...Eu é que não conseguia relaxar no meio de tanto sofrimento.
- Não conseguias ? Se passasses o ano todo a trabalhar como eu conseguias relaxar em qualquer sítio com uma nesga de sol e praia.
- Sim, claro. Foi um ano muito stressante para ti.
- Não calculas ! E se for passar férias em Phuket sempre ajudo a economia local. O turismo, percebes ?
- Ah, sim. E já preparaste a viagem ?
- Não tenho perdido muito tempo com preparativos. Só comprei a passagem de avião e um livro de turismo. O resto compro lá. Deve ser mais barato. Mesmo o bronzeador.
- Vais bronzear-te ?
- Este ano tive tão poucos dias de praia...o pouco bronze que tinha já desapareceu. Vou recarregar energias e preparar-me para iniciar 2005 com um bronze magnífico.

Domingo, Dezembro 26, 2004

Maremoto em Phuket

Ouvi a notícia do maremoto em Phuket hoje de manhã, pela TSF. As convulsões sísmicas atingiram pelo menos cinco países. Mas foi o relato do maremoto na ilha tailandesa, por uma jornalista ali a passar férias, que ouvi na rádio e me despertou recordações. Também eu passeei, em 2001, pelas praias agora invadidas pelo mar. É difícil imaginar local mais tranquilo. Uma espécie de Algarve asiático, isto é, mais bem organizado.
Phuket foi uma espécie de anti-climax da minha incursão pretensamente aventurosa pela Tailândia. Fiz a viagem via Londres e Moscovo, pela Aeroflot, até Banguecoque. Depois apanhei o comboio até Chiang-Mai. Integrei um grupo que fez três dias de «trekking» pelas montanhas. O nosso guia era da tribo dos Karen. Passámos uma noite numa aldeia da tribo e outra numa cabana, no meio da floresta. Guardei destes dias as melhores recordações.
Apanhei outro avião (da companhia tailandesa) até à ilha do Sul. Entrei em dois «tours», um deles o do «James Bond», que percorre os sítios da ilha onde decorreram as filmagens de um título da série. Percorri o mar então pacífico em barcos rentes à linha da água. Conheci outros viajantes efemeramente reunidos pelas circunstâncias. Lembro-me de um jovem casal libanês, de dois irmãos malaios, de uma loura sueca de ar cansado. O seu companheiro estava doente e ficara no hotel. Ela viera no «tour» porque a calma de Phuket tornara-se fatigante. «Temos de nos dedicar a actividades para não nos aborrecermos», disse-me.
Foi esta ilha com tonalidades utópicas que o mar invadiu, em catorze vagas, sucessivas e inexoráveis.

Sábado, Dezembro 25, 2004

Dia de Natal

Hoje é dia mais reconfortante e cruel do ano. Reconfortante para quem o vive em família, ou pensando naqueles que ama. Cruel para quem se sente excluído do Natal – do espírito, da religião, da família, do consumo associado à quadra. Dei uma volta pela blogosfera e encontrei um pouco de tudo: crónica do stress e da nostalgia no Blasfémias, o Natal visto de fora da Igreja por André Belo, a vigília povoada por um silêncio musical em A Foz.
O Natal só faz sentido nesta dualidade. A ilusão infantil ou a auto-satisfação adulta não é o Natal. O desespero não é o Natal. Antes de ser um lugar comum, o Natal foi a história de uma jovem mãe acompanhada por um homem que não era o pai da criança. Eram perseguidos pela demência do poder. Quiseram passar uma noite num lugar seguro e todas as portas se lhes fecharam na cara. Não se perderam na noite. O céu estrelado não estava por cima deles, mas dentro deles. Dois milénios depois todas as iluminações de Natal são ainda o pálido reflexo dessas estrelas.

Sexta-feira, Dezembro 24, 2004

Prenda de Natal

Afinal o Pai Natal existe ! Deixou uma prenda no sapatinho da blogosfera portuguesa: «A exposição dos coelhos suicidas». Aqui vai link, com todo o espírito natalício. Deixo uma sugestão a quem sabe desenhar: e que tal um comboio com coelhos suicidas ?

Hannah Arendt sobre o Natal

A filósofa judia Hannah Arendt escreveu o seguinte:
«Fluindo na direcção da morte, a vida do homem arrastaria consigo, inevitavelmente, todas as coisas humanas para a ruína e a destruição, se não fosse a faculdade humana de interrompê-las e iniciar algo novo, faculdade inerente à acção como perene advertência de que os homens, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para começar. (...)
O milagre que salva o mundo, a esfera de negócios humanos, da sua ruína normal e “natural” é, em última análise, o facto do nascimento, no qual a faculdade de agir se radica ontologicamente. Por outras palavras, é o nascimento de novos seres humanos e o novo começo da acção de que são capazes em virtude de terem nascido. Só o pleno exercício dessa capacidade pode conferir aos negócios humanos fé e esperança, as duas características essenciais da existência humana que a antiguidade ignorou por completo, desconsiderando a fé como virtude muito incomum e pouco importante, e considerando a esperança como um dos males da ilusão contidos na caixa de Pandora. Esta fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a “boa nova”: “Nasceu uma criança entre nós.”
A Condição Humana, Lisboa, Relógio de Água, 2001, pp. 299-300

Quinta-feira, Dezembro 23, 2004

Ainda o Pai Natal

Na década de 80, no tempo em que Mário Soares era Primeiro-Ministo, a minha família passou umas semanas das férias de Verão em Monte Gordo. Segundo contou aos meus pais a proprietária de alguns toldos na praia, um dia Mário Soares apareceu a banhos. A senhora aproveitou logo para lhe pedir dinheiro. O político em calções de banho replicou:
- Ó minha senhora, acha-me com cara de Pai Natal ?

Quarta-feira, Dezembro 22, 2004

O triunfo do Pai Natal


Na outra noite contaram-me que os portugueses bateram um novo record: o maior número de Pais Natal num comboio. Perdi a notícia na televisão. Procurei-a debalde na Internet. Pesquisei mesmo o sítio de «Guiness Book of Records» por «Santa Claus». Só encontrei o registo do maior número de artigos relativos ao Pai Natal, de um tal Jean-Guy Laquerre of Boucherville, do Canadá. Mas acredito na veracidade da notícia. O pessoal que mantém o sítio da Guiness é que deve ser um bocado desleixado e só o actualiza de tempos a tempos. A glória do feito derrama-se por Portugal mas incide particularmente no Norte. Um recordista terá mesmo declarado que uns tipos de Lisboa já se tinham abalançado à tarefa sem conseguir levar a água ao moinho, que é como quem diz os Pais Natal ao comboio.
Temos de nos livrar do nosso pessimismo atávico. Não podemos ver apenas o lado vazio do copo. O tal lado onde se encontra um nível de vida mais baixo que a média europeia, um ensino público sem qualidade, uma saúde que não serve as populações, a investigação científica e tecnológica tratada como ocupação de ociosos e carolas, desemprego, um sistema de Justiça demorado e minado por ligações perigosas, uma democracia representativa que é uma charada. Do lado cheio do copo temos: dez magníficos estádios de futebol; o maior número de Pais Natal num comboio a Norte e a mais alta árvore de Natal da Europa em Lisboa.
A época do ano que atravessamos mostra como a mentalidade dos portugueses se organiza em torno de dois pólos: o Pai Natal e o menino Jesus. Gostamos de velhinhos e de crianças. Uma vez, ao ler um ensaio de Scott Fitzgerald sobre o estado de abatimento que atravessou na década de 30, espantei-me ao verificar que o grande escritor norte-americano considerava a excessiva atenção aos velhos e às crianças um sintoma de depressão. Apercebi-me, de súbito, do estranho facto de as Nações que acreditam nas suas capacidades porem as suas esperanças nos adultos activos.
Mas o Pai Natal é que está a dar. Parece-me que o menino Jesus anda a perder o comboio. Uma sondagem recente da Sic-Online revela que a maior parte dos portugueses vão gastar menos dinheiro em prendas do que no ano passado. Ainda assim 64 por cento vai gastar 500 euros e 19,5 por cento cerca de mil euros.
Não há nada de genuíno no Pai Natal. São Nicolau, o santo em que esta figura, se inspira, viveu e pregou na Turquia. O Pai Natal foi vestido e maquilhado pela Coca-Cola. No entanto, se pensarmos bem, o Pai Natal é apenas a encarnação de um mito português muito mais antigo. O Preste João já tinha qualquer coisa de Pai Natal. Uma figura simpática, rica e generosa, da qual viriam muitos presentes. Fomos à Índia em busca do Pai Natal. Entrámos na Europa confiantes no Pai Natal. O ar estrangeiro assenta-lhe muito bem. Pais Natal da casa não fazem milagres.
Se alguém me dissesse que alemães tinham enchido um comboio de Pais Natal imaginava logo o pior. O que é que fizeram os Pais Natal portugueses num comboio ? Eis uma questão que, sem dúvida, interessa ao menino Jesus.

Terça-feira, Dezembro 21, 2004

O rosto da culpa


O meu novo professor era um vulto alto e negro com óculos grossos e suíças castanhas. Era a primeira manhã de um Outono frio e cinzento que me sentava naquela carteira, na sala de aula de segunda classe. Fizera o ano anterior na Academia de Música de Santa Cecília e viera para a escola 24, atrás do cinema Quarteto. O grosso da turma fez toda a primária junta, eu é que só fiz com eles três quartos. Quando cheguei, senti um ambiente hostil. Eles já se conheciam e eu era um intruso. Mal a minha mãe voltou as costas, um dos meus futuros colegas provocou-me e envolvi-me numa briga.
A aula desenrolou-se, infindável. O professor decidiu que íamos ocupar o tempo a fazer trabalhos manuais. Sentei-me num canto qualquer e comecei a trabalhar. Tinha de forrar uma lata de Cérelac com um papel de lustre amarelo. Com a minha falta de jeito habitual, embrulhei aquilo de forma confusa, o papel estava sujo de cola e com alguns rasgões. Encontrava-me do lado direito da sala para quem se estivesse de costas para o fundo a observar a cena. Estava atrapalhadíssimo com o raio da lata quando dois berros me sobressaltaram: do lado esquerdo, a figura enorme do professor, com a cara vermelha de cólera, descobrira um aluno mais desajeitado e pregara-lhe dois sonoros estalos. O meu coração começou a bater depressa e imaginei uma contagem decrescente: 10, 9, 8... A lata do miúdo castigado devia ter um ou dois vincos e era uma obra-prima ao pé da minha - 7, 6, 5 - o professor atravessava agora a sala - 4,3,2,1 - ouvi com os olhos baixos os seus berros quando descobriu o meu crime e esperei pelos dois fortes bofetões que me puseram a cara a arder desde o queixo à orelha. Mas o que doía de verdade e me queimava por dentro não era tanto o castigo corporal mas a certeza da crua injustiça de que fora vítima. Podia compreender semelhante castigo se tivesse feito alguma coisa de mal - partir um vidro, por exemplo. Mas eu esforçara-me o mais possível para arranjar a merda da lata e o professor ainda me castigava por isso. As bofetadas não castigavam uma transgressão, castigavam-me a mim, por ser o que era.
Ao longo da primária, a minha relação com os colegas e o professor foi melhorando. Eu ouvia atentamente o que o professor dizia. Falava muito dos pobrezinhos e dos pobres rapazes, que ajudava. Nós éramos uns «privilegiados» por andarmos escola pública normal e eu até um pouco mais privilegiado do que os outros por ter feito um ano num bom colégio. Percebi que ele gostava do 25 de Abril e, quando me mandou fazer uma redacção sobre o tema não hesitei: plagiei um dos contos de «O poeta faz-se aos dez anos». É um texto humorístico que afirma que a Restauração se fez para se descobrir o Vasconcelos dentro do armário. Eu escrevi que o 25 de Abril se tinha feito para descobrir pides nos canos de esgoto. A partir de então, o professor mostrou uma certa simpatia por mim.
O tempo passou. Hoje ninguém me incomoda por não saber forrar latas de cérelac. O meu antigo professar primário ainda é vivo. Chama-se Alexandre Martins. É Presidente da Fundação Obra do Ardina. Está acusado de abuso sexual de menores e de desvio de fundos da instituição a que preside. Tem idade para se defender.

Segunda-feira, Dezembro 20, 2004

Macaco à vista

Desde 1903 que não se descobria uma nova espécie de macaco. Ainda por cima, cada vez há menos macacos. No sentido literal, sublinhe-se. Calcule-se portanto o entusiasmo dos biólogos ao descobrirem, na Índia, uma espécie nunca antes registada de macacos – chamaram-lhe Macaca Munzala. A fotografia do novo macaco está no site da revista Nature. Um regalo para olhos cansados de macacos velhos, de macacos sabidos, de macaquinhos de imitação, de homo sapiens sapiens com macaquinhos no sótão e daqueles que extraem o macaco interior pelo nariz. Todas estas sub-espécies da nossa reproduzem-se rapidamente e parecem querer inverter as ideias popularizadas acerca da teoria de Darwin, provando que o macaco é o futuro do homem. A Macaca Munzala mostra ainda haver macacos a sério, que pouca importância dão às macaquices humanas. Louvemos pois a Macaca Munzala e aguardemos com esperança o fim da macacada.

Domingo, Dezembro 19, 2004

História de Marie e Julien

Uma mulher bela e um homem monstruoso, capaz de fazer chantagem sem piedade. Uma casa rodeada de um jardim, com escadas em espiral e sótãos esquecidos. O homem habita a casa acompanhado por um gato saltitante chamado nevermore e entretém-se a afinar relógios grandes. O tic-tac preciso ou incerto das grandes rodas dentadas invade o rés-do-chão, marca o avanço inexorável do tempo, outra personagem deste filme. O homem tem uma estratégia, a mulher rituais secretos. Separa-os um abismo ancorado nas regras desconhecidas da vida. A luta corpo a corpo do homem e da mulher, na casa. Cada corpo tem a memória de outras lutas, em que amor sufocou como uma corda. Qual é, afinal, o poder das lágrimas ? Interpuseram-se entre os olhos de Miguel Strogonoff e a lâmina incandescente de um sabre, protegendo-o da cegueira. Poderão as lágrimas salvar da morte ?

Sábado, Dezembro 18, 2004

O ruído e os gestos

Hoje mergulhei na leitura de jornal e no burburinho próprio de uma casa de centro comercial destinada a estar, beber sobriamente e comer pouco. Da parede de vidro próxima vinha a luz de uma seca tarde de Inverno lisboeta. As conversas cruzadas, a tagarelice, misturavam-se numa onda sonora de palavras indistintas que acabava por favorecer a concentração. Não era o único a achar o ruído humano propício à leitura sossegada. Perto da minha mesa, uma jovem também lia. O mesmo título de jornal que eu. Mas o café não se dividia entre conversadores ruidosos e leitores silenciosos. A dois passos da minha mesa, perto da janela, seis jovens (duas miúdas e quatro homens) conversavam animadamente por gestos. Eram mudos. Reparei neles, por breves instantes, ao sentar-me e ao levantar-me. Os movimentos rápidos e graciosos dos braços e das mãos A chispa no olhar, indicando a necessidade e a vontade uma réplica urgente. Uma súbita evidência atingiu-me: fosse lá o que comunicassem permanecia vivo, irredutível à dissolução em qualquer ruído de fundo, sonoro ou visual.

Sexta-feira, Dezembro 17, 2004

Usar a força em defesa da liberdade

O blogue «Barnabé» está em ebulição por causa da utilização das caixas de comentários dos «posts» com fins difamatórios por internautas anónimos ou que se escondem sob a capa de um pseudónimo. A questão colocou-se desde que este blogue ganhou notoriedade e centrou-se muito no facto do Daniel Oliveira, um dos seus cinco colaboradores, ser militante do Bloco de Esquerda. Os meus amigos André Belo e Pedro Oliveira decidiram suspender a caixa de comentários. Esta decisão abriu um debate no «Barnabé» e na blogosfera.
André Belo argumenta não ser a supressão da caixa de comentários que impede o debate com outros blogueiros. É verdade. Mas as caixas de comentários permitem alargar o debate a pessoas que não têm vocação, tempo ou disciplina para manter o seu próprio blogue. Além disso, permite condensar a discussão. Apesar de ter «E o Esplendor dos Mapas», continuo a escrever alguns comentários concisos noutros blogues. Assim, tenho a certeza de ser lido por quem me suscitou uma reacção.
Rui Tavares colocou a questão da co-responsabilidades dos autores do Barnabé pelos comentários difamatórios publicados contra a sua vontade. Aqui estamos perante um problema novo nos seus aspectos técnicos. No entanto, podemos estabelecer diversas analogias: se eu tenho um espaço num prédio meu reservado a um jornal de parede e alguém vai lá escrever a spray slogans racistas e anti-semitas, sou co-responsável ou lesado ? Se eu tenho uma propriedade rural sem tabuletas a indicar o «direito à não-caça» e, durante o período da caça, a propriedade é invadida por caçadores que largam panfletos difamatórios contra os meus vizinhos, sou co-responsável ou lesado ?
Eu acho que os barnabés são lesado na sua imagem e nos seus direitos de proprietários de um blogue. Acho que o valor da liberdade de expressão é lesado. E este é um valor de todos que, quando é lesado, a todos prejudica. Logo, o que está aqui em causa é um crime. Não é só os visados pelos textos difamatórios que têm o direito de apresentar queixa. Os barnabés também possuem esse direito.
No século XIX talvez a história se resolvesse com uma bengaladas. No século XXI, é triste ter de lembrar que é o Estado o detentor do «monopólio da violência». E deve usá-lo contra a violência particular, que é a difamação, essa violência contra a liberdade em nome da liberdade. O Estado deve prender os culpados, julgá-los e puni-los.

Quinta-feira, Dezembro 16, 2004

Três perguntas aos nossos intelectuais

Começa a ser constrangedor criticar os nossos políticos. É claro que os políticos têm poder e legitimidade para tomar decisões e devem ser responsabilizados pelos problemas que não resolvem. Mas aos intelectuais também se devem pedir contas pelo que pensam e escrevem. É a eles que deixo aqui três perguntas:
1.º - Como é possível que tantos politólogos (a começar por Marcelo Rebelo de Sousa) tenham acentuado, em Julho, o carácter parlamentar do regime e a «sensibilidade parlamentar» de Jorge Sampaio e, quatro meses depois, o Presidente tenha dissolvido a Assembleia da República esquecendo-se de avisar Mota Amaral ?
2.º - Por que é que os nossos juristas se preocupam com o perigo para a democracia que representa a falta de voto secreto no PCP (um partido que não quer nem vai ser Governo) e consideram normal que o Presidente de um partido de Poder e Primeiro-Ministro seja escolhido em manobras de bastidores ?
3.º Que acto falhado levou o psicanalista Carlos Amaral Dias a apoiar Pedro Santana Lopes nas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa ?

Quarta-feira, Dezembro 15, 2004

Álcool e expiação

Há cerca de dois meses um espectro pairando sobre o futuro de Portugal invadiu os jornais e tomou conta do debate público: o álcool. O insucesso escolar e a desorientação dos jovens tinham uma causa líquida e identificada. Hoje, o Público divulga um estudo que coloca a questão nos termos correctos: o consumo de droga e álcool dos jovens portugueses encontra-se muito abaixo da média europeia. Em média, apenas 30 por cento dos portugueses com 16 anos apanharam uma bebedeira enquanto a média europeia situa-se nos 52 por cento.
O alarme acerca do consumo de álcool no nosso país podia surpreender alguém que tivesse emigrado há vinte anos e se tentasse manter a par das notícias. Portugal sempre foi um país de alcoólicos, embora há trinta ou quarenta anos dificilmente o álcool fosse percepcionado como um problema social.
O álcool consolava a miséria e alegrava os estudantes universitários, os boémios e as pessoas comuns nos dias de festa.
Não era estranho as crianças de aldeia serem nutridas a «sopas de cavalo cansado», ou seja, sopas de vinho. Quando cresciam, se fossem homens, continuavam a bebê-lo em tabernas, procurando esquecer os problemas do trabalho e da vida familiar. Em casos de excesso podiam perder ou nunca adquirir trabalho e família ou viver de expedientes para cavalgar no vinho noites de vagabundagem.
O próprio Estado Novo, ditadura austera, cunhou a frase: «Beber vinho é dar de beber a um milhão de portugueses.» Os grandes interesses dos senhores do vinho eram mais importantes do que qualquer preocupação com a saúde pública.
Hoje a imagem simpática do Zé Povinho de penca vermelha, ou do estudante bêbado de capa e batina, deu lugar à de um adolescente a cair de borco com uma garrafa de whisky na mão. É esta imagem que assusta. O Povinho era, na óptica da boa sociedade, a que detém o poder e inculca os valores, uma imagem do «outro». A boémia representava o período estudantil ou o tio excêntrico de uma família bem estruturada. O adolescente embriagado é uma imagem dos filhos das boas famílias. Ou é do colega. Ou dos amigos da «noite».
A questão é saber por que é que surge este espectro. Claro que há adolescentes portugueses que bebem demais. Mas será esta a razão ? Hoje em dia, numa Europa com mobilidade de circulação de pessoas, a comparação com o que se passa noutros países é inevitável. E, como confirma o estudo, é-nos favorável. No Reino Unido, quer entre os estudantes universitários quer entre empregados, grassa a ideia de que sem bebedeira não há diversão. O excesso do álcool à noite caracteriza muito mais a Europa do Norte do que Portugal.
No entanto, verifica-se uma diferença. No Reino Unido ou no Norte da Europa o excesso de álcool é uma compensação do excesso de disciplina. Os estudantes ou os trabalhadores passam toda a semana a estudar ou a trabalhar afincadamente, adoptando regras de correcção extrema. Quando chega o fim-de-semana bebem para se libertar da disciplina. Por isso, nesses países não há contradição entre produtividade e bebedeira. Uma é o reverso da outra.
Em Portugal não há disciplina nem organização e os jovens bebem. Não bebem tanto como no Norte da Europa, mas o que bebem não compensa a disciplina - agrava a indisciplina.
Logo, a verdadeira questão não é o álcool – é a desorganização e indisciplina.
O alcoolismo é um problema. Não pode ser um bode expiatório.



Terça-feira, Dezembro 14, 2004

Soneto à terra trémula

Estremeceu, como a nossa carne,
A terra – aconteceu ontem à tarde.
Que fez, como nós, a trémula terra ?
Um subtil avanço, um passo de dança ?

Um gesto de atracção ou repúdio ?
Um bocejo de sono e cansaço ?
Um doce arrepio inadiável ?
Um apelo a partir em viagem ?

Uma confissão de ser vulnerável ?
Um ajuste de contas impecável ?
Um acto falhado e inconsciente ?

Uma implosão surda e remota ?
Um sinal de tormenta digerida ?
Uma declaração incompreendida ?

Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

A crise e a doutrina

Não há pachorra para as voltas, reviravoltas, guerras e guerrilhas em que regurgita a política portuguesa. No actual estado das coisas, não admira que «A Quinta das Celebridades» esteja a perder audiências. As zangas privadas e as desavenças públicas dos políticos são concorrência desleal. Os comentadores oscilam entre os desabafos de enfado e uma análise às «intenções» e aos «bons sentimentos» dos protagonistas. Frente à televisão, os espectadores vão dando palpites sobre quem deve sair ou ficar em cena. Na Academia, os politólogos que ainda em Julho viam nos acontecimentos uma confirmação do carácter parlamentar do nosso regime agora reconhecem o enorme poder presidencial.
Poucas pessoas aproveitam para reflectir sobre as fraquezas do nosso sistema político. Vivemos num regime semi-presidencial e semi-partidocrático. É na segunda parte da fórmula que reside o défice de democracia. Em Portugal, votar num partido com vocação de poder equivale a passar um cheque em branco. Um partido é eleito para Governar e nos quatro anos seguintes pode mudar de líder, mudar de equipa ministerial, mudar de programa político, mudar de estratégia de coligação, mudar de ideologia. A crise da democracia representativa não se encontra só no desinteresse do eleitorado – também está no desprezo dos partidos políticos pela vontade expressa nas urnas.
Perante, a «situação», o que é que se «pode esperar» e «pode fazer» ? Não podemos esperar que todos os partidos tenham a rígida consistência ideológica ou representem uma «classe» como o PCP. Na sociedade moderna, os partidos tendem a agrupar diversas sensibilidades ideológicas e a ser «catch-all parties» que se dirigem a nichos de eleitores de diferentes meios sociais. Num mundo «aberto» onde não há ideologias«científicas» e novos desafios surgem a todo o momento não vejo que possa ser de outro modo.
A única maneira de evitar que um voto seja um cheque em branco, com uma sigla partidária como remetente, é substituir o cheque em branco por um contrato em que a outra parte tem um rosto, um nome, assume responsabilidades. Miguel Sousa Tavares escreveu, sexta-feira passada, em O Público, um louvor ao sistema político inglês que responsabiliza os deputados perante os eleitores. Apesar das reservas que me merecem qualquer apelo à «importação» de um modelo estrangeiro, creio que o sentido certo das reformas do sistema político é o que reforça os poderes do Parlamento e a autonomia dos deputados.
Em Julho gabou-se muito o nosso «parlamentarismo» e atribuiu-se aos deputados um papel formal na resolução da crise. Se estes tivessem de facto autonomia e lhes fosse atribuída a escolha do sucessor de Durão Barroso, eleito entre diversos candidatos, o mais provável é que Pedro Santana Lopes não tivesse oportunidade de fazer as conhecidas trapalhadas. A opção de não convocar eleições antecipadas continuaria a ser discutível. Mas a legitimidade o XVIº Governo não apareceria como diminuída aos olhos da opinião pública.
A objecção à via «parlamentar» mais comum nos países atrasados é conhecida: a classe política é fraquinha. Só um líder excepcional pode mobilizar as massas e os militantes, levá-los a superar-se a eles próprios. É o messianismo democrático. Em Portugal, a actualização do mito sebastianista.
Este raciocínio processa-se num círculo vicioso: porque são fracos, os políticos têm de ser «yes-men» de um grande líder; os «yes-men» de um líder só podem ser políticos fracos. A única maneira de cortar este círculo vicioso é chamar à política pessoas que pensem pela sua cabeça, tenham convicções e qualidades, se responsabilizem perante os eleitores. Este corpo intermédio de políticos eleitos pode constituir uma massa crítica que mobilize um eleitorado desinteressado, ao mesmo tempo que apoia criticamente os respectivos dirigentes.
É uma via para desatar o nó górdio da nossa política que exige paciência. Mas as alternativas são um nó cada vez mais apertado ou o golpe implacável da espada de Alexandre.

Domingo, Dezembro 12, 2004

«Alexander» debaixo de fogo

O filme de Oliver Stone sobre Alexandre Magno tem sido arrasado pela crítica anglo-saxónica. Jeffrey Bruner, em Des Moines Register, abre as hostilidades do seguinte modo: «How nice of Uncle Oliver to have brought the turkey». E passa o resto do texto a «trinchar» o peru.
Eu não me alisto nesta guerra. É certo que Alexander não chega aos calcanhares de épicos como Lawrence da Arábia de David Lean, Apocalypse Now e O Padrinho de Francis Ford Coppola ou O Último Imperador de Bertolluci. Mas Oliver Stone não é um grande realizador – apenas um médio/bom cineasta autor de filmes controversos sobre temas controversos: a guerra do Vietname (Platoon e Nascido a 4 de Julho), os assassínios em série (Natural Born Killers), a revolução cultural dos anos 60 (The Doors), o assassínio de John Kennedy (JFK), etc.
Em Alexander, Stone tenta seguir o voo da água sobre a batalha de Gaugamela e, beneficiando do distanciamento histórico de vinte e cinco séculos, reflectir sobre o sentido da vida e a condição humana. Faltou-lhe um golpe de asa. Ao fim de uma hora, ainda não tinha percebido aonde é que queria chegar. Comecei a interrogar-me se Oliver Stone não seria mais um antigo esquerdista convertido aos delírios imperialistas e belicistas. Colin Farrell, que nos mostrou o seu valor em Phone Booth, nem sempre se mostra à vontade na pele de Alexandre e o cabelo platinado, obviamente, não ajuda. Quando senti o filme a descolar do solo vi-o como um espelho onde se reflecte, com um misto de narcisismo e de auto-crítica, a globalização norte-americana.
Alexandre Magno intentou a globalização do mundo helenístico. Pela violência, mas também por tratados, pelo casamento com uma asiática, pelo desempenho de uma missão civilizadora. A adoração de que é alvo tem um sentido muito diferente a Ocidente e a Oriente mas é um elo de união. Ele não quer destruir as outras civilizações, mas integrá-las numa civilização maior e gloriosa.
A ligação desta filme na obra de Oliver Stone não se encontra só no fascínio com que filma a violência, mas nos mitos vindos da Grécia que continuam a iluminar esta cultura dita ocidental. Estão lá muitos: o de Édipo, de Prometeu, de Pandora. As sombras de Hollywood reflectem os arquétipos da Grécia. O palavreado acerca do carácter «divino» de Alexandre não é de desprezar. Há um sopro neo-pagão neste filme que se deve cruzar com o sopro fundamentalista de Mel Gibson em A Paixão de Cristo. Dois filmes que buscam na História as raízes das contradições da sociedade dos Estados Unidos, dilacerada entre o fundamentalismo cristão e essa fábrica de ídolos que é Hollywood. Faz sentido comparar o papel de Monica Belluci no filme de Gibson e o de Angelina Jolie no de Stone. Belluci é o corpo de personagem secundária e convertida a Cristo. Jolie tem aqui finalmente um papel à sua altura e é a personagem que manipula e condiciona todas as outras, nomeadamente o filho, Alexandre. Uma das deusas do Olimpo cinematográfico desempenha aqui o papel de Olímpia. Infelizmente, aquele que foi durante muito tempo o Michael Moore da ficção coxeia quando pretende imitar Zeus.

Sexta-feira, Dezembro 10, 2004

A privatização do Big Brother

O Big Brother privatizou-se. Não me estou a referir aos programas da Endemol inspirados nas obras de ficção mais conhecidas de George Orwell. A mais recente encarnação do Big Brother chama-se «Tranquility Bay». É uma instituição correccional de crianças e adolescentes situada na Jamaica. Os menores que a frequentam não infringiram nenhuma lei – tiveram comportamentos desviantes como fumar “charros», andar com más companhias, vestir-se mal ou dizer palavrões. O Estado não as julgou nem condenou – quem o fez foram os pais, sem apelo nem agravo. Os pais acharam que os filhos deviam ser reeducados e pagam à «Tranquility Bay» entre 33.750 e 54.000 euros por ano para cumprir a função. Assinaram um contrato atribuindo a esta instituição 49 por cento da custódia das crianças.
A «reeducação» pode durar até três anos, durante os quais são aplicadas regras simples: separação de sexos (incluindo proibição de contacto visual), vigilância permanente (mesmo na retrete há sempre alguém do outro lado da porta), um sistema de punições e recompensas que distribui os alunos por níveis. Os alunos pior classificados precisam de pedir autorização para falar, sentar-se ou levantar-se. Os melhores alunos podem vigiar os outros três dias por semana.
Depois de meio-século durante o qual o «1984» foi uma peça de propaganda da Guerra Fria é legítimo reler o romance. Quem conhece o ensaio de Orwell sobre o colégio em que andou - «Such, such were the joys» - percebe que o comunismo não foi a sua única inspiração ou experiência de um universo concentracionário.
Nem os Estados Unidos são o farol do «mundo livre» nem a União Soviética e os países comunistas foram a única forma de perversão da utopia. Um Estado livre não pode permitir a livre negação das liberdade individuais – nem pelos islâmicos na Europa nem por qualquer seita religiosa ou comunidade utópica nos Estados Unidos. É para este país que se devem dirigir agora as preocupações acerca das pulsões totalitárias subjacentes a um projecto de criar um «homem novo».

Quinta-feira, Dezembro 09, 2004

The mother of all plots

«Boy meets girl». É a mãe de todos os enredos de Hollywood. Um dia Billy Wilder achou uma pena desperdiçar tantos sonhos fantásticos que esquecia mal acordava. Deitou-se com uma caderninho de notas e uma esferogrática à cabeceira. Durante a noite acordou e rabiscou umas notas. No dia seguinte leu os rabiscos e deparou com a frase - «boy meets girl». «O Apartamento» é uma das incontáveis variações deste enredo, que de tão básico se torna um desafio. Nesta história há um homem que encontra uma mulher e uma mulher que encontra um homem; nesta história há duas mulheres e um homem. O filme vai buscar um sapatinho à história da Cinderela, umas tiradas a Shakespeare, umas canções à música pop, sem sair dos moldes de Hollywood. Uma mulher fica com o homem, a outra com um bom papel. Não sei se é justo, mas vê-se bem.

Quarta-feira, Dezembro 08, 2004

O livro do Barnabé

O Barnabé versão livro é um bebé lindo e de boas cores. Ontem passei pela Ler Devagar, para festejar o nascimento do rebento. Dos cinco barnabés, o único que não conheço e que não se licenciou em História pela FCSH da Universidade Nova é o Daniel Oliveira. Sou amigo do Pedro Oliveira, do Celso Martins, do André Belo e do Rui Tavares. Os nossos caminhos têm-se cruzado por razões inconscientes ou por escolhas que derivam da amizade. Com o Rui falo ocasionalmente, devido a amizades comuns e à inevitável frequência da Biblioteca Nacional e da Torre do Tombo. O Celso foi meu colega de Mestrado. Sou amigo de há longa data do André, embora os nossos encontros sejam espaçados. Com o Pedro, tenho maior proximidade e um caminho a fazer na História Contemporânea. Faço votos que continuem a escrever sobre o passado e o presente com o mesmo desassossego.

Terça-feira, Dezembro 07, 2004

Cidadão Soares

Um dos meus sonhos cinéfilos impossível era ver um filme sobre Mário Soares realizado e interpretado por Orson Welles. Soares tem a paixão pelo poder de Kane e a bonomia de Fallsfat. É homem de duas ou três convicções, sendo uma delas a liberdade. Teve dúvidas e errou como qualquer humano, mas esteve certo nas opções políticas essenciais: a luta pela democracia durante a ditadura e o período revolucionário, a adesão à CEE, a oposição à invasão do Iraque. A descolonização não foi exemplo para ninguém, mas a sua margem de manobra era muito reduzida. Nunca se armou em génio, santo, herói ou vítima. Apadrinhou uma exposição de cartoons sobre ele no Palácio de Belém – assim se vê a força de um político. Hoje faz oitenta anos. Não faz sentido beatificá-lo. Merece os nossos parabéns.

O espírito de Frankenstein

O espírito de Frankenstein permanece entre nós. No romance original, Frankenstein não era o monstro criado por um cientista enlouquecido, a partir de um cadáver, que se revoltava contra o seu criador e a crueldade dos seres humanos. Frankenstein era o cientista do Século das Luzes (XVIII) ávido de deslindar os mistérios da natureza e de, substituindo-se a Deus, criar vida humana.
Não, não me estou a referir à clonagem. Nem a manipulação genética. As primeiras células sintéticas apareceram num laboratório dos Estados Unidos. Não se pode dizer que estejam vivas, pois não se podem reproduzir nem evoluir. Mas são capazes de gerar proteínas. Podem funcionar como uma espécie de mini-fábricas de proteínas de valor industrial e médico. A insulina, por exemplo.
Os «Frankensteins» norte-americanos estão babados com a descoberta/invenção e anseiam pelo novo grande passo para o homem: a duplicação das células sintéticas.
Uma leitura em diagonal no site da revista Nature chama-nos a atenção para o facto de outros cientistas quererem criar parques temáticos em Marte, antecipando-se à inevitável poluição de visitas de terrestres. Outra notícia: apesar de se terem descoberto novas sub-espécies do tigre da Malásia, a conservação deste ícone felino continua problemática. É como se este humano passo em direcção às celulas sintéticas fosse um passo do «samba do crioulo doido».

Segunda-feira, Dezembro 06, 2004

Camarate

De acordo com as conclusões da VIII Comissão de Inquérito sobre Camarate, a queda do Cessna onde seguia Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa teve origem no rebentamento de um explosivo.
É preciso levar até às últimas consequências o carácter peremptório destas afirmações. Se a tese do atentado é certa, crescem dúvidas sobre todos os inquéritos anteriores acerca do caso.
Só o apuramento da verdade nos poderá libertar dos fantasmas do passado. Se não se descobrirem os autores do atentado, pelo menos reconstitua-se a rede de erros, equívocos, negligência e interesses que ocultaram os factos durante um quarto de século. Caso contrário, o tom de comédia absurda que adquiriu a nossa política resvalará para o de um filme «gore». Num momento de incerteza de todos e de angústia de alguns, os fantasmas serão armados e atiçados contra adversários políticos.
Numa situação de crise, a política que não racionaliza os conflitos é o cavalo sem freio de todos os medos.

Domingo, Dezembro 05, 2004

Cada um no seu lugar

O PSD não quer a realização da campanha das próximas eleições durante o Carnaval. Faz bem. É preciso evitar confusões.

Sábado, Dezembro 04, 2004

O peixódromo

Durante a Expo-98, um visitante em busca do aquário Vasco da Gama perguntou a um assistente de pavilhão onde é que ficava o «peixódromo». Desde então esta palavra tem nadado na minha mente à procura de um cais. Agora vejo o peixódromo como uma pista de corrida aquática daquelas que ziguezagueiam e terminam no ponto de partida. Os bicharocos especiais de corrida são peixes e cetáceos. Segue-se o inventário:
O peixe-palhaço é o único a levar-se a sério.
O salmão não tira a mão.
O cavalo-marinho perdeu o tino.
O percebes não entende nada.
O lavagante é arrogante.
A estrela-do-mar pisca frequentemente.
A enguia é sabida.
A raia anda zangada.
A lampreia é uma alambicada.
O cachalote deu um calote.
O golfinho coitadinho.
O atum lá se conserva.
O peixe martelo espetou um prego.
O tubarão é um lambão.
O peixe espada desembainhou-se.
O cherne mudou de nome.

O cherne

Que a política seja má é como o outro. Que estrague a leitura de bons versos é pior. O cherne que saltou de um poema de Alexandre O´Neill e entrou na nossa vida quotidiana seguia um rumo bem diferente. Foi apanhado, congelado e enviado para Bruxelas.
O poema «Sigamos o cherne» surgiu a Alexande O´Neill depois de ver o filme «O Mundo do Silêncio» de Jacques-Yves Costeau:

Sigamos o cherne, minha Amiga !
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa do passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos raros de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

Nota: Este e o outro poema foram extraídos de Poesias Completas 1951/1986, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990


Da cepa do surrealismo português

Com as devidas vénias a Mário Cesariny, a minha colheita preferida da cepa do surrealismo português é Alexandre O´Neill. Aqui fica um dos mais belos poemas da sua obra e do nosso lirismo:

UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Sexta-feira, Dezembro 03, 2004

Autografia

Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levanto-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

Assim começa o poema «Autografia» de Mário Cesariny. Assim começa o filme do mesmo nome de Miguel Gonçalves Mendes, com as palavras ditas contra o ecrã em branco de letras negras incrustadas. Estreou ontem no King Triplex, com a presença do realizador e do poeta-pintor-personagem. Cesariny limitou-se a marcar presença e não brindou o público com nenhuma frase cortante. Miguel Mendes mostrou um mais do que justificado entusiasmo. Os desdenhares profissionais do cinema português não andam sempre a perguntar onde é que está o filme independente, a irreverência não subsidiada ? Ecco. Eis o filme, o realizador e Mário.
É o enorme pudor de Miguel Mendes que permite a imensa exposição de Mário Cesariny – do seu corpo frágil e envelhecido; dos recantos mais obscuros e mais luminosos da sua alma. Um filme aberto à recusa surrealista de uma arte maior do que a vida, porque só a vida pode ser maior do que a vida e é por isso que a vida artística, a vida surrealista, é a bêbado, do apaixonado e do poeta. Foi neste desejo imenso de sol que tantos ícaros do surreal queimaram as asas. Cesariny viveu e sobreviveu. Talvez porque, no fundo, a pessoa a quem mais amou foi ele mesmo.
O documentário fixa uma peça de teatro da qual Mário de Cesariny é a principal personagem e actor. Para se dizer, Cesariny precisa dos seus cenários, das suas «coisas», das suas palavras e macacadas; precisa de entrar em diálogo e até em confronto com o realizador, a câmara, a irmã; precisa de contar sonhos, histórias, memórias; deambular pela cidade, mesmo que no interior de um táxi; virar as costas à câmara enquanto ascende a um céu azul; fazer palhaçadas num barco encalhado; recitar o nome dos surrealistas que já partiram iluminado por néon vermelho. Fala da «chatice» que é a morte e do amor como via para o sagrado.
Após «Autografia» foi exibido «Momentos na Vida de um Poeta», pequena-metragem muda e a preto e branco. Lisboa de 1964 filmada como um sonho esquisito protagonizado por Mário Cesariny.
Um dia o poeta disse não ter obra mas apenas «coisas». A não ser que a sua obra seja afinal a personagem do seu nome vestida.

Quinta-feira, Dezembro 02, 2004

Mentiras que brilham

Se o ditado português «mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo» tem algum resíduo de verdade, então os coxos são mesmo difíceis de apanhar. A mentira e, ainda pior, a suspeita da mentira parecem ter invadido a sociedade. Henrique Chaves bateu com a porta acusando Santana Lopes de ter mentido. No processo da casa Pia todos acusam todos de mentir (o mais honesto ainda parece ser o Bibi, o que prova que não basta ser honesto para ser virtuoso). Mas não é só em Portugal que a mentira pesa. Aznar mentiu aos espanhóis atribuindo as responsabilidades do atentado de Madrid à ETA. Acerca da intervenção na guerra do Iraque há duas versões: os críticos de Bush dizem que mentiu e os seus defensores dizem que foi enganado. Mas se foi enganado alguém lhe mentiu, Bush deixou-se enganar ou correu o risco de ser enganado para levar a cabo uma guerra preventiva.
Alguns cientistas acham que estão prestes a encontrar a solução do problema. É verdade. A solução (ou parte dela) chama-se fMRI (functional Magnetic Resonance Imaging). Segundo o “site” noticioso da revista científica “Nature” uma mentira deixa um lastro luminoso no cérebro do mentiroso. E é possível mostrar o sinuoso brilho de uma mentira num ecrã, em tempo real. Será provavelmente no século XXI o que o tão discutível “detector de mentiras” foi no século XX. Com mais credibilidade. É mais fácil controlar a respiração, o batimento cardíaco, do que o funcionamento do cérebro.
Quando é que o novo método será utilizado pelas autoridades ? Chegará alguma vez à sociedade civil ? Alguma vez se dirá «olhos no MRI» em vez de «olhos nos olhos» ? Talvez então se invente uma nova expressão romântica: «sem olhar o MRI».

Quarta-feira, Dezembro 01, 2004

O ano político de 2005

Este não é um blogue político e ultimamente tenho escrito muito sobre política. Não consigo evitá-lo. É ela (a política) que se mete connosco (os portugueses). No entanto, posso economizar as minhas energias e devo poupar o teclado. Este «post» é sobre um ano inteiro de política portuguesa, o próximo ano. Prometo só voltar à política para escrever sobre qualquer assunto que não esteja previsto neste texto.
Comecemos pelos partidos políticos e pelo CDS/PP, cujo líder botou discurso em directo há cerca de duas horas. Paulo Portas vai descobrir a desvantagem para um político de ter personalidades múltiplas. Talvez a maior parte dos ministros do seu partido não tenham estragado a imagem de um «partido estável, disciplinado e seguro». Muitos eleitores até simpatizam com um projecto «conservador-reformista». Acontece que esses eleitores vão votar no PS. E o CDS/PP não se encontra no «lugar equidistante» entre os dois maiores partidos portugueses, onde o queria colocar Freitas do Amaral. O CDS/PP marcou presença à direita do PSD. Só pode chegar ao poder coligado com o PSD santanista que mostrou ser instável, indisciplinado e inseguro. Resultado: o CDS/PP vai é receber os votos dos indefectíveis fãs do espectáculo montado em torno do «barco do aborto».
Quanto ao PSD, já toda a gente percebeu que Santana Lopes vai ser varrido nas próximas eleições legislativas. A questão é saber quem é que lhe vai suceder. Cavaco Silva parece-me um nome improvável, até porque se tem colocado num nível supra-partidário. Eu penso que seria maléfico para a democracia portuguesa que um discurso de «união nacional em torno das competências» fosse emitido a partir de um partido político. Não entendo por que é que agora não se fala de Marcelo Rebelo de Sousa. Ele saíu de líder do PSD por ter falhado uma aliança com o CDS/PP que as próximas eleições legislativas podem tornar dispensável se o partido de Paulo Portas tiver tão poucos votos como se prevê. E abandonou o comentário semanal na TVI em ruptura com Santana Lopes. Após a derrota nas legislativas de 2005 haverá novo Congresso do PSD e nova disputa de liderança. Será a hora de Marcelo Rebelo de Sousa.
A dúvida em relação ao PS é saber se vai ganhar as próximas eleições com ou sem maioria absoluta. O que se seguirá depende em grande parte deste facto. Será um Governo que aproveitará a doença infantil do PSD para entrar em força no centro.
O PCP assumiu-se como um partido de classe, dos operários e de todos os trabalhadores [proletarizados]. Este posicionamento garante-lhe a sobrevivência. Está fora do seu alcance ser um partido de vanguarda como os seus militantes sonharam. Será um partido de rectaguarda. O futuro dos que não têm futuro.
Entre um PS posicionado ao centro e um PCP fechado sobre si, o Bloco de Esquerda terá uma oportunidade de crescimento.
Quanto às presidenciais, a questão é saber se Cavaco se candidata. Tudo indica que sim – e para ganhar.
As eleições autárquicas e o referendo à Constituição Europeia merecerão uns «posts» a tempo próprio.
Com a saída de Santana, caímos na «real» e o nosso pequeno mundo político torna-se mais previsível.