Quando fui humano
Podem não acreditar, mas já fui humano. Um daqueles seres que rompem pelo planalto em jipes ruidosos. Páram quando avistam um animal de grande porte e entusiasmam-se quando descobrem uma chita, um leão deitado em cima de um rochedo ou um leopardo escondido sob a copa de uma acácia. Hoje à tarde as memórias da minha outra vida refrescaram-se. Lembrei dias amenos em Lisboa, a cerveja do Bairro Alto, o desconforto do metro nas horas de ponta, a atmosfera asséptica da Torre do Tombo e os minutos de sol na varanda da Biblioteca Nacional. E também os os cinemas, os encontros no Saldanha Residence e o tempo passado nas praias do Atlântico.
Por quê todas estas lembranças despropositadas ? Não me admirava se a ingestão do louco fotógrafo tivesse a sua influência. Era um estrangeiro. Não tenho a menor dúvida. Talvez, como tantos outros, tomasse a sua dose semanal de Mephaquine desde há longos meses. É possível que os efeitos secundários sentidos por humanos que o tomam frequentemente como prevenção contra a malária - sonhos intensos, delírios, alucinações - me afectem neste preciso momento.
O homem não podia estar no seu juízo perfeito ao tentar fotografar-me exactamente quando me preparava para caçar um impala. A presa escapou, mas não o fotógrafo. A carne adocicada dos humanos não é a minha preferida. Mas, de vez em quando, por que não ?
Pergunto-me qual será a próxima reencarnação da alma do fotógrafo. Duvido que a presa de um leopardo anime o corpo de um outro leopardo. No entanto, admito: quem arriscou a sua vida na savana pode muito bem cá voltar. Será um desses lagartos de rabo comprido e cabeça vermelha, passando a maior parte do dia agarrados a uma rocha batida pelo sol.

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