E o esplendor dos mapas

"E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta" - Álvaro de Campos eoesplendor@hotmail.com

Nome: João Miguel Almeida
Localização: Lisboa, Portugal

Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

Quando fui humano

Podem não acreditar, mas já fui humano. Um daqueles seres que rompem pelo planalto em jipes ruidosos. Páram quando avistam um animal de grande porte e entusiasmam-se quando descobrem uma chita, um leão deitado em cima de um rochedo ou um leopardo escondido sob a copa de uma acácia.
Hoje à tarde as memórias da minha outra vida refrescaram-se. Lembrei dias amenos em Lisboa, a cerveja do Bairro Alto, o desconforto do metro nas horas de ponta, a atmosfera asséptica da Torre do Tombo e os minutos de sol na varanda da Biblioteca Nacional. E também os os cinemas, os encontros no Saldanha Residence e o tempo passado nas praias do Atlântico.
Por quê todas estas lembranças despropositadas ? Não me admirava se a ingestão do louco fotógrafo tivesse a sua influência. Era um estrangeiro. Não tenho a menor dúvida. Talvez, como tantos outros, tomasse a sua dose semanal de Mephaquine desde há longos meses. É possível que os efeitos secundários sentidos por humanos que o tomam frequentemente como prevenção contra a malária - sonhos intensos, delírios, alucinações - me afectem neste preciso momento.
O homem não podia estar no seu juízo perfeito ao tentar fotografar-me exactamente quando me preparava para caçar um impala. A presa escapou, mas não o fotógrafo. A carne adocicada dos humanos não é a minha preferida. Mas, de vez em quando, por que não ?
Pergunto-me qual será a próxima reencarnação da alma do fotógrafo. Duvido que a presa de um leopardo anime o corpo de um outro leopardo. No entanto, admito: quem arriscou a sua vida na savana pode muito bem cá voltar. Será um desses lagartos de rabo comprido e cabeça vermelha, passando a maior parte do dia agarrados a uma rocha batida pelo sol.