E o esplendor dos mapas

"E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta" - Álvaro de Campos eoesplendor@hotmail.com

Nome: João Miguel Almeida
Localização: Lisboa, Portugal

Quinta-feira, Março 31, 2005

Nicole Kidman

Birth causa no espectador uma sensação incómoda. É difícil gostar de um filme com ambientes e personagens tão sinistras. Quando as luzes se acendem, as reacções variam entre a incompreensão - «o filme não tem pés nem cabeça» - e um lento trabalho digestivo, de quem precisa de tempo para arrumar ideias. A incompreensão afectou a recepção crítica da obra. Escreveu-se que a história não existia e a película vivia apenas de reflexões e remissões de outros filmes. Mas a história está lá, por muito intragável que seja: é a história de amor entre um rapaz de dez anos e uma mulher de trinta e tal. Uma amor correspondido. Que no caso da mulher surge entre um amor não correspondido por um marido que morreu e um novo casamento, de conveniência.
O filme começa por situar-se no terreno do fantástico. Como Todorov escreveu num ensaio notável, Introdução à Literatura Fantástica, o fantástico vive da ambiguidade entre a possibilidade de uma explicação sobrenatural para um enigma e a sua explicação natural. Quando o enigma se resolve numa solução sobrenatural saímos do género fantástico e entramos no maravilhoso. Quando é apresentada uma solução natural para o mistério deparamos com o género estranho. Os Outros, uma história de fantasmas com Nicole Kidman, passava do fantástico para o maravilhoso (os fantasmas existiam mesmo e eram as personagens principais). Birth começa como filme fantástico e termina como um filme estranho (o miúdo não é a reencarnação do falecido marido).
Nicole Kidman também foi acusada de imitar Diane Keaton neste filme e de ser uma estrela sem brilho próprio. Porém, uma das frases publicitárias deste filme - «Cuidado com o que desejas» - podia servir de mote a muitas outras personagens interpretadas por Nicole. A perversão do desejo é um tema recorrente nos filmes em que aparece. Ela é óbvia em Eyes Wide Shut de Stanley Kubrik e em Human Stain. Encontra-se presente de maneira mais subtil em Os Outros (a perversão do amor maternal) e Dogville (a perversão do sentimento de justiça).
Em Nicole Kidman converge o brilho mais cintilante das estrelas e a atracção obscura dos buracos negros.


Nicole Kidman em «Birth» Posted by Hello

Quarta-feira, Março 30, 2005

O carneiro turco

Os carneiros que vivem na Turquia são mesmo carneiros turcos. Mesmo os que tinham o nome científico de Ovis armeniana. Vão passar a chamar-se Ovis orientalis anatolicus para não levar ninguém a pensar que estes carneiros vivendo na Turquia são carneiros arménios. As raposas vermelhas que habitam a Turquia são mesmo raposas turcas: para tirar qualquer dúvida vão deixar de chamar-se Vulpes vulpes kurdistanica e adoptar o nome de Vulpes vulpes, não vá alguém pensar que há raposas curdas na Turquia. Por fim, a corça até agora conhecida por Capreolus capreolus armenus vai, a bem do interesse nacional turco, ser reconhecida como Capreolus cuprelus capreolus, um bicho insuspeito de qualquer identidade arménia.
O Governo justifica esta medida com a ideologia nacionalista de Atatürk. Os nomes destes animais estavam imbuídos da intenção «nefasta» de destruir a unidade da Turquia. Os arménios e os curdos propriamente ditos foram postos na ordem pela violência das armas. Quanto aos inocentes e politicamente incorrectos animais, não é necessário dizimá-los – basta mudar-lhes o nome. É este país imenso, com um Governo sentindo-se ameaçado por nomes de animais, que pretende integrar o espaço plural da Europa. Uma pretensão negada pelos europeus que defendem a «identidade cristã» da Europa. Como chamar a estes europeus ? Seria errado chamar-lhes europeus cristãos, pois o cristianismo é uma projecto universal que não se pode delimitar em fronteiras. Deixo aqui uma sugestão: podiam chamar-se Ovis ocidentalis dada a extrema semelhança com o Ovis orientalis anatolicus, ou seja, os carneiros turcos.

Terça-feira, Março 29, 2005

A graça e o grotesco

O estado de graça do Governo reveste do mesmo odor primaveril o anúncio de boas medidas, medidas simplesmente mediáticas e medidas perigosas. Uma medida que é, sem dúvida, um bom sinal é a legislação que define os cargos da administração pública de nomeação política. Na situação vigente, a injustiça misturava-se com a demagogia de um partido acusar o outro de fazer o mesmo na mesma situação de poder. Simplesmente mediáticas são as medidas de venda de medicamentos nos supermercados e de redução das férias judiciais. Poderão ser boas medidas se articuladas com outras. Por si só, de pouco valem. Muito perigoso é o anúncio da intenção de criar uma base de dados genéticos para toda a população portuguesa. É patético que José Manuel Fernandes, no editorial de hoje de O Público, só se preocupe com os custos de tal operação. O défice parece ser a monomania da nossa «direita liberal».
O Governo propõe-se criar uma base genética de todos os portugueses para usar com fins de investigação criminal. Tal projecto ainda não foi levado a cabo em nenhum país do mundo. O Reino Unido começou a criar uma base semelhante em relação a pessoas interrogadas pela polícia por suspeição de crimes. Alberto Costa, ex-perseguido pela polícia política da ditadura portuguesa (1926-1974), acha saudável que o Estado considere todos os cidadãos portugueses suspeitos. Um português viveria com esta «diferença kafkiana» em relação a um britânico, francês ou alemão: à cautela, o Estado possui os seus dados genéticos.
Contra esta visão eu afirmo: não só qualquer cidadão português é inocente até prova em contrário, como o Estado português tem pecados dos quais ainda não se redimiu. Já toda a gente esqueceu o escândalo das «escutas» e as diatribes de Manuel Alegre contra o novo autoritarismo «mais perverso» que o do Estado Novo ? Vivemos num país em que, no ano passado, conversas privadas entre cidadãos gravadas pela polícia foram manchete de jornais e abriram telejornais. Vivemos num país acabado de sair da campanha eleitoral mais suja de que há memória. Já imaginaram o que seria, numa disputa eleitoral, aparecerem na comunicação social informações acerca da «doença maldita» de um candidato ? Ou que o político A, B ou C não era o verdadeiro pai da criança que julgava ser seu filho ?
Insinuada num período de graça do Governo, a hipótese de uma base de dados genéticos de todos os portugueses abre as portas aos cenários mais grotescos.

Para que serve a diplomacia portuguesa ?

Durante a tragédia do tsunami asiático, em Dezembro passado, abstive-me de criticar a (in)acção da diplomacia portuguesa. É óbvio, como disse Jorge Sampaio na visita à China, que nenhuma diplomacia estava preparada para uma catástrofe daquelas. A identificação do corpo de uma vítima do maremoto de 26 de Dezembro, Belinda Coutinho, pelo marido, obriga-me a quebrar o silêncio e devia obrigar o Governo a pedir responsabilidades. Paulo Coutinho afirma que o corpo da mulher foi recolhido no dia do acidente. A fotografia do corpo, dados na aliança, a data e o nome do marido encontravam-se disponíveis desde o início de Fevereiro num centro de identificação das vítimas do tsunami aberto a familiares e a diplomatas acreditados. Na TSF, ouvi Paulo Coutinho, afirmar que Portugal era a única nacionalidade sem qualquer representante no centro de identificação. A notícia em O Público, baseada na Lusa, já não referia este «pormenor», sem que tivesse surgido qualquer desmentido. A comunicação social, ávida a lançar suspeitas de negligência em cima do acontecimento, mostra falta de interesse perante a incompetência provada, três meses depois.

Segunda-feira, Março 28, 2005

Catolicismo e liberalismo

Acerca da relação entre catolicismo e liberalismo, Rui A. escreveu um impressionante «post» no Blasfémias que não dá para comentar em meia-dúzia de linhas, escritas ao final do dia. Há alguma relação entre este texto e o tema da «fundação da direita» discutido no fim-de-semana, discussão que irritou Vasco Pulido Valente por ter ignorado o papel da Igreja Católica ? É difícil responder. Rui A. aborda o liberalismo quase como se fosse a «Ideia» hegeliana revelando-se na História. Mesmo antes das modernas divisões entre esquerda e direita, a «Ideia» já se manifestava nos escritos de teólogos dos séculos XVI e XVII. Molina e Suaréz são citados ao lado de Hayek. A «teologia do mercado» não é necessariamente uma figura de retórica.

Domingo, Março 27, 2005

A Igreja e a direita liberal

Na sua invectiva contra os intelectuais que ousaram opinar sobre a fundação da direita sem referir a Igreja Católica, Vasco Pulido Valente invoca a aliança de sempre entre a Igreja Romana e a direita em Portugal. Cita expressamente o miguelismo, o qual foi «uma aliança entre o trono e o altar». Esquece que, face ao miguelismo, o liberalismo era, no século XIX, uma ideologia de esquerda.
O «Público» recolheu depoimentos de intelectuais que se reconhecem na área ideológica do liberalismo. Eu não acredito que a direita anti-liberal tenha morrido mas não há dúvida de que a «direita fashion» é hoje a direita liberal. E a relação entre Igreja Católica e liberalismo foi e é problemática. A aspiração católica a uma «harmonia social», a sua simpatia por um corporativismo de associação, vive em tensão com o individualismo liberal.
Numa sociedade marcada pela laicização e pelo pluralismo religioso, a direita liberal não só pode ser não religiosa como até pode ser religiosa e cristã sem ser católica. A Voz do Deserto é um bom exemplo, na blogosfera, desta possibilidade. Em rigor, a direita só pode conciliar liberalismo com catolicismo se remeter este para uma «questão de consciência individual». E é justamente nestes termos, separando o indivíduo do todo social, que o catolicismo resiste a deixar-se pensar.

Prémio revelação católica

«E o vencedor é...» Vasco Pulido Valente. Escreve ele hoje no Público: «ainda em 1979, na campanha da AD, assisti a muita missa em que se proibia o voto no PS, por ser obviamente marxista». Fica a dúvida: Vasco comungava ?

Páscoa e Seder

Este site indica as afinidades e as diferenças entre a Páscoa cristã e o Seder judaico.

Sábado, Março 26, 2005


A última ceia Posted by Hello

Sexta-feira, Março 25, 2005

Cristo segundo Oscar Wilde

«(...) o lugar de Cristo é junto dos poetas. Toda a sua concepção de Humanidade provém directamente da imaginação e só pode ser realizada através dela. O que Deus era para um Panteísta, era o homem para ele. Ele foi o primeiro a conceber as raças divididas como uma unidade. Antes do seu tempo, tinha havido deuses e homens. Só ele percebeu que, nas montanhas da vida, só havia Deus e Homem, e, sentindo através do misticismo da simpatia que ambos tinham encarnado nele, chama a si próprio Filho de Um ou filho do outro, segundo o seu estado de espírito. Mais do que qualquer outra pessoa na história, ele desperta em nós aquela capacidade de nos maravilharmos para a qual o romance apela. Continua a haver, para mim, qualquer coisa quase incrível na ideia de um jovem camponês, Galileu, imaginar que pode carregar sobre os seus ombros o fardo do mundo inteiro; tudo o que já se fez e se sofreu e tudo o que ainda se fará e sofrerá; os pecados de Nero, de César Borgia, de Alexandre IV, e daquele que foi Imperador de Roma e Sacerdote do Sol; os sofrimentos daqueles cujo nome é Legião, e daqueles que vivem entre os túmulos, as nacionalidades oprimidas, as crianças que trabalham em fábricas, os ladrões, as pessoas que estão na prisão, os marginais, aqueles que estão mudos pela opressão e aqueles cujo silêncio apenas é ouvido por Deus e não apenas imaginar isto, mas realizá-lo de facto, de modo a que, no momento presente, todos conhecem a sua personalidade e, embora possam não ser curvar diante do seu altar nem se ajoelhar diante do seu sacerdote, sentem, de alguma maneira, que a fealdade dos seus pecados é afastada e que se revela a beleza do seu sofrimento.
Disse dele que se situa ao lado dos poetas. Isso é verdade. Shelley e Sófocles são da sua companhia. Mas toda a sua vida é também o mais maravilhoso dos poemas. No que diz respeito “à piedade e ao terror”, não há nada, em todo o círculo da tragédia grega, que se lhe compare. A pureza absoluta do protagonista eleva todo o esquema a uma altura de arte romântica, do alto da qual os sofrimentos de “Tebas e da linha de Pélops” são, pelo seu próprio horror, excluídos, e mostra até que ponto Aristóteles estava errado ao dizer, no seu tratado sobre o Drama, que seria impossível aguentar um espectáculo de um pessoa sem culpa que sofre. Nem em Ésquilo nem em Dante, esses mestres supremos da ternura, nem em Shakespeare, o mais puramente humano de todos os grandes artistas, nem no conjunto das lendas e mitos celtas, onde a beleza do mundo é apresentada através de um nevoeiro de lágrimas, e a vida do homem não é mais do que a vida de uma flor, há alguma coisa que, na absoluta simpatia do pathos empenhado e tornado um só com a sublimidade do efeito trágico, se possa considerar igual, ou mesmo aproximada do último acto da Paixão de Cristo.»
WILDE, Oscar, The Profundis, Lisboa, Editorial Estampa, 1991, pág, pp. 111-112

Quinta-feira, Março 24, 2005

Baile no mercado da Ribeira

Hoje há danças europeias em Lisboa, no mercado da Ribeira, pelas 22 e 30. Os Uxu Kalhus vão animar o baile pascal.


Uxu Kalhus Posted by Hello

Quarta-feira, Março 23, 2005

Viagens feitas e imaginadas

Ao receber hoje, juntamente com O Público, As Cinco Semanas em Balão de Júlio Verne, lembrei-me de folhear o índice do romance sobre uma viagem aventurosa em África em busca de alguma referência ao Kilimanjaro, a montanha mais alta deste continente. Não encontrei. Descobri rapidamente a razão: Júlio Verne escreveu o livro em 1863. O relato da primeira escalada ao topo do Kilimanjaro, que deparou com o cepticismo da comunidade científica, foi escrito em 1891 por Hans Meyer: Across East African Glaciers - an account of the first ascent of Kilimanjaro. Os dois livros reflectem as diferenças entre os escritores que viajam na imaginação e os escritores que viajam fisicamente. São dois tipos diferentes de pioneirismo.


Verne não viu esta montanha Posted by Hello


Júlio Verne Posted by Hello

Terça-feira, Março 22, 2005

O engraçado Delgado

A apresentação do programa do Governo, segundo Luís Delgado, é uma «boa surpresa». Eu não acho graça a passar um cheque em branco a um executivo mas engracei com o facto do engraçado Delgado ter sido contagiado pela Graça do Governo.

O grande educador

Dois anos depois da invasão Iraque uma sondagem feita a 800 estudantes universitários de Bagdad, Bassorá e Mossul permite formar uma ideia do poderá ser a democracia iraquiana (a notícia em «O Público» pode ser lida aqui). Para estes estudantes, a democracia é «a melhor forma de governo», além de sinónimo de «liberdade e progresso económico». Mas de que democracia é que estão a falar ? A sondagem avança no sentido da resposta a esta questão. É uma democracia multipartidária, com a participação das mulheres mas sem uma tutela militar, que poderá ser efectiva daqui a cinco anos.
Não é, no entanto, uma democracia com «separação entre a religião e o Estado». O que é que isto significa num Estado com várias religiões em que o poder no tempo de Saddam Hussein era detido por sunitas que respeitavam a minoria católica e agora passou para a maioria xiita ? Ao contrário do que tendem a insinuar determinados comentadores, esta questão não é completamente estranha à experiência da Europa ocidental. O barão de Altenstein, ministro dos Cultos de 1810 a 1840, na Prússia, um Estado confessional protestante com súbditos católicos, enunciou uma fórmula que se tornou famosa: «O Estado prussiano é um Estado protestante que conta mais de um terço de sujeitos católicos. Ele age correctamente desde que o Governo cuide da Igreja protestante com amor e da Igreja católica segundo o seu dever. A Igreja protestante deve ser favorecida, mas a Igreja católica não deve ser frustrada». Apesar da analogia, o modelo político aqui traçado encontra-se bastante próximo de um Estado vizinho do Iraque. Refiro-me, como é óbvio, ao Irão – um Estado com multipartidarismo e um Governo legitimado pelas urnas em que as mulheres têm uma maior participação na vida pública do que na pró-americana Arábia Saudita. O que não o impede de ser considerado uma ameaça para Israel e uma peça do eixo do mal para os Estados Unidos.
Há um aspecto da vida democrática que se brilha pela sua ausência nesta sondagem: o respeito pelos direitos humanos. Percebe-se porquê. Ainda recentemente o «Público» deu conta de confissões públicas de presumíveis terroristas na televisão iraquiana. Os telespectadores deleitam-se com o espectáculo de personagens expiatórias que não se limitam a contar os crimes que cometeram mas também se declaram filhos da puta (no sentido literal do termo) e membros de famílias marcadas por vícios e desvios. Aliás, donde é que poderia vir a estes estudantes a ideia de que a democracia pode ter alguma coisa a ver com o respeito por direitos individuais ? Não certamente dos Estados Unidos, que os violam sistematicamente na base de Guantánamo e raptando na Europa suspeitos de terrorismos interrogados sem quaisquer garantias e à mercê de torturas. George W. Bush pretende ser o «grande educador dos povos oprimidos» e está a passar a mensagem que democracia não é sinónimo de respeito pelos direitos humanos.

Segunda-feira, Março 21, 2005

Dia Mundial da Poesia

«E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta,
Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.

O que de sonho jaz nas encadernações vetustas,
Nas assinaturas complicadas (ou tão simples e esguias) dos velhos livros.
(Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte,
O que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações,
O que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam.

Tudo quanto sugere ou exprime o que não exprime.
Tudo o que diz o que não diz,
E a alma sonha, diferente e distraída.

Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!)»

CAMPOS, Álvaro de, Poesias, Lisboa, Edições Ática, 1980, pág, 51

A célebre vida na Quinta

É ao ver um programa como «A Quinta das Celebridades» que entendo o que leva um homem como Steve Zissou a passar a vida a observar peixes. Esclareço que não teria visto o programa se uma vaga de fundo de leitores, incluindo numerosas famílias, não me tivesse pedido para comentá-lo.
Do exercício não retirei qualquer ilação mas apenas perguntas:
1) Se uma Quinta é para a Lili Caneças o que a lua foi para o Armstrong onde é que ela vive ?
2) Se para a Lili uma «vaca não é menos do que outras pessoas» um tipo abaixo de cão estará ao nível de um vitelo ?
3) Quais são os «factores» que levaram o boyband a entrar na Quinta ?
4) O que é que leva pessoas que são conhecidas e não se encontram num estado de indigência a submeter-se às «regras» da Quinta ?

Domingo, Março 20, 2005

O sentido da vida aquática

O sentido da vida aquática não é nem a explicação científica nem vingar-se mas carregar em ombros adultos o sonho de aventuras de uma criança.


A vida aquática Posted by Hello

Sexta-feira, Março 18, 2005

Gabo

O lançamento em Portugal do último romance de Gabriel García Marquez é um bom pretexto para recordar as linhas iniciais da sua obra-prima, Cem anos de Solidão:
«Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo. Macondo era entonces una aldea de veinte casas de barro y cañabrava construidas a la orilla de un río de aguas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos. El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo».
MARQUEZ, Gabriel García, Cien Años de Soledade, Barcelona, Plaza & Janes, 1980, pág. 7.

Quinta-feira, Março 17, 2005

Pleonasmo

Um surrealista português é uma figura pleonástica.

O surrealismo manifesta-se


Amanhã, às onze da noite, o surrealismo manifesta-se na Rua das Salgadeiras, n.º 28, no Bairro Alto. O pretexto não é para menos: faltam precisamente nove anos para comemorar o primeiro centenário do I Manifesto Surrealista. Posted by Hello

Quarta-feira, Março 16, 2005

O Regresso de Santana

Ainda que não faça mais nada, Santana Lopes já resolveu o problema de um sem-abrigo: ele mesmo. Pelo menos durante seis meses...

Terça-feira, Março 15, 2005

Os dois retratos

Caro João Miguel Almeida

Perdoe-me este email que é o relato de uma experiência pessoal, estranha, inexplicável. Gostaria que a publicasse no seu blogue, mas não levarei a mal se não o fizer. Muitos visitantes julgarão estar perante o texto de uma louca. Eu própria, por vezes, julgo que enlouqueci. Não me atreveria a contar-lhe esta história se, ao ler o seu post «Meditação borgeana sobre Freitas do Amaral», não tivesse deparado com o seguinte remate: «...descobrindo-se idêntico e oposto, nesse labirinto de espelhos que é o tempo». Esta frase como que abriu a porta às palavras para exprimir o meu espanto.
Nasci em 1956, em São Pedro do Sul. A minha mãe teve seis filhos: o Diogo, eu, a Rosa Maria, a Deolinda, a Sara e o Roberto. Toda a sua vida foi cuidar dos filhos e da casa. O meu pai era dono de uma garagem e possuía várias propriedades rurais. A maior delas tinha um moinho de água onde eu ia por vezes ler, nos anos finais do liceu.
A revolução dos cravos apanhou o meu irmão em Lisboa, no segundo ano de Direito. Seguíamos os acontecimentos à distância, angustiados por mal perceber o que se passava, regozijando que o meu irmão já não tivesse de ir fazer a guerra colonial, temendo que as propriedades da família caíssem nas mãos dos comunistas. O meu pai, homem rígido e de poucas falas, sempre torcera o nariz à ideia de pôr uma filha a estudar em Lisboa. Agora emudecia perante a possibilidade de me colocar no meio de uma revolução. Recordo a ansiedade do último ano do liceu. Julgava-me à beira da vida e, justamente no momento em que o mundo à minha volta parecia cheio de todas as possibilidades, sentia-me ameaçada pela fatalidade de permanecer à distância dos meus sonhos e das ignoradas respostas para as minhas inquietações. Foi o meu irmão Diogo que intercedeu por mim, dando garantias ao meu pai. No ano lectivo de 1974/1975 entrei na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ficando a dormir numa residência universitária administrada por freiras. Um ano depois mudei-me para a sede do partido maoísta em que militava. Apaixonei-me pelo Manuel, um dirigente do meu partido que considerava o meu irmão um reaccionário. Soube mais tarde que uma vez se tinham mesmo pegado à pancada, por razões políticas. O Manuel foi preso em Peniche, pelo COPCON.
Nesse momento de crise e perseguições, o meu partido chegou à conclusão que seria melhor buscar refúgio junto da minha família, em São Pedro do Sul. O meu pai não queria falar comigo e a minha mãe não sabia o que dizer-me. Instalei-me no moinho. A Rosa Maria e Deolinda iam lá levar-me comida, roupa lavada e pilhas para o rádio que era a minha companhia. Os dias que lá passei duravam como meses ou anos. Ouvia rádio baixinho, lia alguns livros, escutava os pássaros. Passava muito tempo a contemplar as fotografias do Manuel e do Diogo, que trazia na carteira. O Manuel com o seu olhar contundente, o bigode eriçado, os pêlos do peito espreitando da camisa aberta; o Diogo de barba feita, com um sorriso tímido embrulhado no fato e gravata. Falava com eles. Por vezes, a expressão dos retratos parecia alterar-se ligeiramente, como se reagissem às minhas palavras. Esses momentos solitários em que nada acontecia parecem-me, ainda hoje, mais reais do que tudo o que veio a acontecer: a revolução acabou e também a ilusória eternidade da juventude.
O Manuel saiu de Peniche, eu voltei à universidade, o país enveredou pela democracia que é a nossa. Eu casei e tive dois filhos (a Luísa e o Rodrigo). Não do Manuel, mas do João, um médico veterinário que conheci em Viseu, onde fui colocada a dar aulas. O Manuel também casou – com uma americana que conheceu em Bruxelas, onde foi trabalhar como funcionário da União Europeia, depois de uma curta carreira de advogado em Lisboa. O Diogo casou, teve três filhos e tornou-se um católico empenhado. A sua actuação como advogado chamou a atenção de uma multinacional norte-americana que o convidou para dirigir os serviços jurídicos das filiais em Portugal. Ainda não me convenci que o seu despedimento teve alguma relação com as suas manifestações contra a intervenção dos Estados Unidos no Iraque, embora seja certo que a sua empresa possui interesses económicos naquele país. Mesmo, assim, surpreendi-me de o ver, nas últimas eleições, a fazer campanha pelo Bloco de Esquerda. Quando ao Manuel, trocou Bruxelas por Bagdad, onde se encontra a trabalhar como consultor a convite do sogro, um milionário do petróleo.
Na sexta-feira passada a morte do meu pai fez-me regressar aos lugares da minha infância e adolescência. Depois do funeral, passeei sozinha por montes e vales. Voltei a entrar no moinho. Lembrei-me que acabara por guardar as duas fotografias numa cigarreira que escondi numa fenda da parede, junto ao chão. Tirei a cigarreira, abri-a, temendo o confronto com os retratos que sabia ali guardados há trinta anos. As minhas mãos tremiam. Eu não sabia o que lhes dizer. Mas será que eles me diriam alguma coisa ? Abri a cigarreira. O Manuel, muito sóbrio na sua camisa branca e gravata amarela, fazia um sorriso de cortesão chinês. Diogo deitou-me com um olhar esfuziante, o cabelo revolto, a boca aberta como se cantasse.

Segunda-feira, Março 14, 2005


As mulheres dos punhais voadores Posted by Hello

Recomendação cinéfila

As mulheres organizaram e lideraram um movimento de resistência ao Governo chinês no século IX e não conseguem marcar presença significativa num Governo do PS no século XXI. O Eng.º Sócrates devia ver este filme para reconhecer as virtudes guerreiras femininas. As mulheres do PS deviam vê-lo para aprender a dar boas punhaladas.

Domingo, Março 13, 2005


Ziyi Zhang Posted by Hello

A lenda dos punhais voadores


Vale a pena ver o site de «The House of flying daggers» aqui. Posted by Hello

Amor chinês de perdição


«A lenda dos punhais voadores» é uma obra sumptuosa para os olhos e os ouvidos. O realizador de «Herói» volta a cruzar os géneros histórico e de artes marciais, surpreendendo ao enxertar num filme marcadamente chinês um fôlego shakespeareano. Há momentos que evocam «Romeu e Julieta», embora não estejamos perante uma adaptação como a que Kurosawa fez em «Ran», tomando como ponto de partida outra peça do dramaturgo inglês, o «Rei Lear». Zhang Yimou virá a ser o Kurosawa chinês ? As artes marciais na sua vertente mais requintada e esplêndida chegaram às salas de cinema da Europa e dos Estados Unidos. O amor de perdição chegou à China. Posted by Hello

Sábado, Março 12, 2005

Os robots seremos nós

O «Público» da passada quinta-feira trazia, na última página, uma notícia inquietante: as editoras discográficas estão a recorrer a um programa informático, o HSS (Hit Song Science) para seleccionar as músicas que editam. Este programa possui uma vasta memória de «hits» musicais e avalia cada nova música segundo os parâmetros das músicas que foram êxito no passado. O processo funciona. Há mesmo compositores que o aceitam com resignação: «antes ser avaliado por uma máquina bem intencionada do que por um executivo com más intenções», declarou um músico espanhol.
Esta resignação abre as portas de um futuro perigoso. Qual será o limite para esta lógica ? Não me custa a admitir que um dia um informático não venha a criar um software idêntico para avaliar obras literárias. Porquê arriscar a publicar o que ainda não se sabe se é bem aceite pelo público ? Como a palavra escrita é a expressão mais visível do pensamento, a produção de ideias poderá sofrer um processo idêntico. Mas porquê ficarmo-nos pelo pensamento quando é possível passar aos actos ? Num mundo em que tais processos se generalizem, haverá alguma razão para partidos e políticos de carreira perderem tempo com líderes e programas de poder condenados ao fracasso ? Acabará por se criar um software que seleccione programas e líderes políticos de sucesso garantido. No dia em que tal acontecer, para quê haver eleições ? As eleições seriam apenas a confirmação dispendiosa de um resultado previsível e previsto.
Uma vez garantidos o cumprimento de objectivos na arte e na política, tornar-se-ia óbvia a vantagem de aplicar tais processos à vida privada. Para quê perder tempo a namorar ou a casar com a pessoa errada ? Um computador que tivesse a sua memória carregada de combinações maritais de sucesso seria muito mais fiável do que qualquer devaneio amoroso. É claro que para um homem poderia haver várias mulheres adequadas e vice-versa. Nestes casos, o computador operava apenas numa primeira fase. Na segunda, recorria-se a processo aleatórios. Em linguagem menos científica, tirava-se à sorte. Desta forma evitam-se cenas desagradáveis.
Os computadores permitiriam, pela primeira e última vez na História, construir uma sociedade perfeita. Seria a última vez, porque a História deixaria de existir. A História pressupõe evoluções, rupturas, acontecimentos. Numa sociedade de êxito assegurado o futuro seria apenas a repetição do que dera garantias no passado. A História seria substituída por uma Sociologia científica. Mas não seria científica no sentido que hoje é dado à palavra. A sociedade estaria sujeita a variações regulares que poderiam ser quantificadas e redutíveis a fórmulas matemáticas.
Este mundo regular e previsível não teria Diabo, pois o Diabo, como escreveu o jovem Bergman, «não tem programa». Também não teria Deus. Ambos seriam substituídos por um software adequado. O homem, filho de Deus e meio irmão do Diabo, desapareceria com o resto da família. Em seu lugar não surgiriam robots humanizados, mas sim humanos robotizados. Os robots seremos nós.

Sexta-feira, Março 11, 2005


Silêncio Posted by Hello

Quinta-feira, Março 10, 2005

Chuva

Com a chuva veio a luz nocturna reflectida nos passeios e o cheiro a terra molhada.

Olá estranho


As personagens de «Closer» são mais estranhas ao espectador no final do que no início. Há uma frase de um dos primeiros filmes de Bergman que vem a propósito: «O Diabo não tem programa» Posted by Hello

Quarta-feira, Março 09, 2005

Tough ain´t enough


«Tough ain´t enough»: eis a lição do último filme de Clint Eastwood que Bush ainda não aprendeu. Continua a querer resolver os problemas no Médio Oriente à lei da bala, como nos velhos filmes do Oeste e de «dirty Harry» Posted by Hello

Terça-feira, Março 08, 2005

Também Adriano ?

Na entrevista ontem dada ao «Público»(pode lêr-se aqui), Adriano Moreira afirma: «a economia de mercado, que eu, por vezes, chamo a teologia de mercado, precisa de correcções humanistas que vêm de perspectivas do socialismo democrático e da democracia-cristã». Instado a esclarecer se essas correcções devem provir apenas de mecanismos reguladores dos mercados ou de políticas, Adriano explicita: «Estou a falar de políticas».
Esta entrevista, na qual o velho Professor também critica de modo contundente, a política externa unilateral dos Estados Unidos e a sua intervenção no Iraque, é útil à polémica em torno da entrada de Freitas do Amaral no Governo PS. Não, não creio que o retrato de Adriano Moreira corra o risco de fazer a mesma viagem que o de Freitas do Amaral. Mas a ausência desse risco talvez se deva, principalmente, ao facto de Adriano Moreira já não considerar voltar à política activa.
Aquele «e», entre o socialismo democrático e a democracia-cristã, é uma copulativa impertinente, que deve causar arrepios a algumas pessoas. Quer de direita quer de esquerda. Em minha opinião, as segundas têm mais razões de queixa da História. Foi o socialismo democrático, ao reconhecer o valor da economia de mercado e da propriedade privada dos meios de produção, a aproximar-se da democracia-cristã.
Hoje, se tivéssemos que traçar uma fronteira entre direita e esquerda nas sociedades liberais, os «teólogos de mercado» situavam-se à direita e à esquerda todos aqueles que esperam dos políticos uma sociedade mais justa. Ou, numa perspectiva filosófica moderada e pessimista, menos injusta. Há muitas concepções políticas de justiça e são estas diferenças que identificam as tradições políticas à esquerda. Para a direita, a justiça é, quando muito, uma questão de tribunais.
Esta definição de direita é puramente teórica. Na prática, seria muito difícil a um partido de direita ganhar força numa democracia representativa sem defender nenhuma ideia de justiça social. Porém, para os partidos democráticos de direita, a justiça é sempre um valor político subalterno em relação a outros valores (a ordem, a liberdade, a segurança, o crescimento económico).
O mundo vai mudando e não há uma separação entre mundo, homens e política. Os homens e mulheres são mundo e fazem a política de que o mundo é feito.

Segunda-feira, Março 07, 2005

In vino veritas


E a verdade também se encontra em bons filmes, como «Sideways», de Alexandre Payne Posted by Hello

Domingo, Março 06, 2005

Kilimanjaro


Em Agosto o meu grupo de «happy few» subirá ao tecto de África. É um objectivo e uma promessa. Posted by Hello

Sábado, Março 05, 2005

Meditação borgeana sobre Freitas do Amaral

Freitas do Amaral merece o nosso louvor. A sua entrada para o Governo do PS, mais do que um significado político, tem um sentido existencial, metafísico. O Professor logrou fazer na política o que, segundo Jorge Luís Borges, Pierre Menard intentou realizar na literatura.
Para quem não se encontra familiarizado com a obra do escritor argentino, esta analogia exige uma explicação. No seu conto «Pierre Menard, autor do Quixote», Borges narra a extraordinária aventura intelectual de um escritor que tentou, em pleno século XX, escrever outra vez, palavra por palavra, o romance de Miguel Cervantes.
O resultado foi espantoso. Cervantes, por exemplo, escreveu: «...la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir». Como observa Borges, «Redigida no século XVII, redigida pelo “engenho leigo” Cervantes, esta enumeração é um simples elogio retórico da História». Menard, pelo contrário, escreveu, em pleno século XX: «...la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir.» As mesmas palavras, em diferente contexto, são outras palavras, como sublinha o contista: «A história mãe da verdade: a ideia é espantosa. Menard, contemporâneo de William James, não define a história como uma investigação da realidade, mas sim como a sua origem. A verdade histórica, para ele, não é o que aconteceu; é o que julgamos que aconteceu. As cláusulas finais - "exemplo e aviso do presente, advertência do porvir" - são desafrontadamente pragmáticas.»
Menard foi apenas a personagem de um conto de Borges. E, mesmo assim, não concluiu o seu intento ambicioso de escrever outra vez O Quixote. Mas Freitas do Amaral é uma personagem dele mesmo e realizou o seu intento. Acerca da frase anterior, as escolas dividem-se. Para uns, o Freitas do Amaral de 1974/75 é uma personagem do Freitas do Amaral de 2004/2005. Para outros, o Freitas do Amaral de 2004/2005 é uma personagem do Freitas do Amaral de 1974/1975. Seja como for, o grande feito de Freitas do Amaral é ser a mesma personagem com trinta anos de intervalo. O Freitas do Amaral de 1974/1975 defendia a família, o trabalho, a iniciativa privada portuguesa, os direitos humanos. Sendo de formação católica tradicional via no comunismo uma ameaça a todos estes valores. Por isso, foi um líder da direita que não hesitaria em denunciar as opressões no «arquipélago Gulag». O Freitas do Amaral de 2004/2005 defende a família, o trabalho, a iniciativa privada portuguesa, os direitos humanos. Sendo de formação católica, vê na globalização americana a precarização do trabalho que prejudica a estabilidade social necessária a relações familiares sólidas, constata a vulnerabilidade da iniciativa privada portuguesa à concorrência internacional e ao capital espanhol, choca-se com a violação dos direitos humanos pelos norte-americanos na base de Guantánamo. Por isso, entrou para o Governo PS e não hesita em denunciar a violação do direito internacional e de regras éticas por George W. Bush.
Teria sido fácil a Freitas do Amaral ser fiel à «marca» da direita, defendendo, hoje, o que a democracia-cristã não defendia em 1974/1975. Preferiu ser, noutro momento, a mesma personagem, revelando-se paradoxalmente idêntico e oposto nesse labirinto de espelhos que é o tempo.

Sexta-feira, Março 04, 2005

Dia de Baile

Hoje há baile de danças europeias, no mercado da Ribeira. À hora do jantar, houve baile de política portuguesa, em todos os canais. António Vitorino piscou o olho, sorriu, galanteou, cortou-se a dançar. Freitas do Amaral já vinha mudando de estilo, embora mantivesse o sorriso. Acabou por trocar de parceira. António Costa, cavalheiro sóbrio de passos medidos, deu o braço à dama desprezada por Vitorino. Aguardemos o início da música e do espectáculo.

O vampiro virtual

O Togfer.AT está a agitar a banca virtual na Península Ibérica. Consegue copiar as «passwords» de clientes de «Homebanking», enviá-las para as pessoas que o lançaram na Internet e permitir-lhes sacar o dinheiro de contas privadas. Os jornalistas chamaram-lhe «cavalo de Tróia» e «vírus». Metáforas mortas que deslocam para uma nova realidade um sentido antigo. O «cavalo de Tróia» foi usado para conquistar a bela Helena. Os vírus eram lançados por estetas da destruição, quais Neros virtuais, ou por piromaníacos que desejavam ser bombeiros, vendendo o remédio para o mal que eles próprios tinham criado. Os criadores do Togfer.AT nem são estetas nem pessoas à procura de emprego. Querem usar o seu «software» para sugar dinheiro da Rede. O Togfer.AT podia chamar-se «sanguessuga informática» ou «vampiro virtual».

Quinta-feira, Março 03, 2005

Anúncios

O Padre Nuno Serras Pereira, que é pago para anunciar a Boa Nova, pagou do seu bolso um anúncio no qual anuncia que está impedido de dar a comunhão a determinadas pessoas. A lista é longa, mas a categoria «inclui a aceitação ou concordância com a actual “lei” em vigor (6/84 e seus acrescentos)» é suficientemente abrangente para evitar minudências. O caso criou mal estar na hierarquia católica e do patriarcado, segundo o «Público», veio um pedido de admoestação ao padre franciscano pelos responsáveis da Ordem. Não é caso para menos. Alguns comentadores vieram logo lembrar a Inquisição mas equivocaram-se. A Igreja Católica nunca recusou a comunhão a ninguém por aceitar as leis emanadas pelos poderes legitimamente constituídos. A declaração do Padre Nuno Serras Pereira, implicitamente, não reconhece a legitimidade do Estado português. A comparação correcta seria com os fundamentalistas islâmicos. Os tais que são o «outro» civilizacional.

Quarta-feira, Março 02, 2005

O Aviador

Li algures que Martin Scorsese era o menos megalómano dos «movie brats». Mas é também o especialista em personagens paranóicas (Táxi Driver), cheias de raiva e impulsos auto-destrutivos (O Touro Enraivecido) e Gangsters (Tudo Bons Rapazes, Casino, etc). Howard Hughes tem todas estas características. É uma personagem scorseseana por excelência. O filme possui a ironia suplementar de analisar as taras mais características de marginais urbanos na pessoa de um dos maiores empresários norte-americanos. As relações entre ele, o seu rival dono da Pan America e o Governo não andam longe das relações triangulares entre gangsters rivais e polícias corruptos.
Hughes é também um obcecado pelo cinema, quer como produtor, quer como amante de estrelas cinematográficas míticas: Katherine Hepburn e Ava Gardner.
«The Aviator» só é um filme «ao gosto de Holywood» por ser uma super-produção. É, sem dúvida, um filme de autor e, até certo ponto, um filme maldito. Cate Blanchett vai muitíssimo bem no papel de Katherine Hepburn e Leonardo Dicaprio arrisca ao interpretar uma personagem com recantos sombrios. Falta ao filme um golpe de asa para ser uma obra-prima. O arranque e o desfecho são fracos. O episódio da infância de Hughes é insuficiente para explicar as suas paranóias. Não faz sentido deixar em aberto a narrativa de uma personagem histórica que já morreu. Scorsese não ganhou o Óscar, mas somou um retrato à sua galeria sobre o doloroso crescimento da nação americana.

Terça-feira, Março 01, 2005

It´s the artistics, stupid

O «Wall Street Journal» publicou, na sexta-feira passada, os cálculos de um economista que atribuía a «O Aviador» 84,6 por cento das probabilidades de ganhar o Óscar de melhor filme, contra 13,5 por cento de «Million Dollar Baby». Era considerada uma garantia suplementar de isenção e rigor dos cálculos que o referido economista não tivesse visto nenhum dos filmes. É caso para escrever: «It´s the artistics, stupid».
Durante a cerimónia dos Óscares, Cate Blanchett, melhor actriz secundária, declarou perante milhões de telespectadores de todo o mundo que gostava de ver o seu filho casado com a filha de Scorsese. Como Obélix diria, «estes americanos são doidos».