Caro João Miguel Almeida
Perdoe-me este email que é o relato de uma experiência pessoal, estranha, inexplicável. Gostaria que a publicasse no seu blogue, mas não levarei a mal se não o fizer. Muitos visitantes julgarão estar perante o texto de uma louca. Eu própria, por vezes, julgo que enlouqueci. Não me atreveria a contar-lhe esta história se, ao ler o seu post «Meditação borgeana sobre Freitas do Amaral», não tivesse deparado com o seguinte remate: «...descobrindo-se idêntico e oposto, nesse labirinto de espelhos que é o tempo». Esta frase como que abriu a porta às palavras para exprimir o meu espanto.
Nasci em 1956, em São Pedro do Sul. A minha mãe teve seis filhos: o Diogo, eu, a Rosa Maria, a Deolinda, a Sara e o Roberto. Toda a sua vida foi cuidar dos filhos e da casa. O meu pai era dono de uma garagem e possuía várias propriedades rurais. A maior delas tinha um moinho de água onde eu ia por vezes ler, nos anos finais do liceu.
A revolução dos cravos apanhou o meu irmão em Lisboa, no segundo ano de Direito. Seguíamos os acontecimentos à distância, angustiados por mal perceber o que se passava, regozijando que o meu irmão já não tivesse de ir fazer a guerra colonial, temendo que as propriedades da família caíssem nas mãos dos comunistas. O meu pai, homem rígido e de poucas falas, sempre torcera o nariz à ideia de pôr uma filha a estudar em Lisboa. Agora emudecia perante a possibilidade de me colocar no meio de uma revolução. Recordo a ansiedade do último ano do liceu. Julgava-me à beira da vida e, justamente no momento em que o mundo à minha volta parecia cheio de todas as possibilidades, sentia-me ameaçada pela fatalidade de permanecer à distância dos meus sonhos e das ignoradas respostas para as minhas inquietações. Foi o meu irmão Diogo que intercedeu por mim, dando garantias ao meu pai. No ano lectivo de 1974/1975 entrei na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ficando a dormir numa residência universitária administrada por freiras. Um ano depois mudei-me para a sede do partido maoísta em que militava. Apaixonei-me pelo Manuel, um dirigente do meu partido que considerava o meu irmão um reaccionário. Soube mais tarde que uma vez se tinham mesmo pegado à pancada, por razões políticas. O Manuel foi preso em Peniche, pelo COPCON.
Nesse momento de crise e perseguições, o meu partido chegou à conclusão que seria melhor buscar refúgio junto da minha família, em São Pedro do Sul. O meu pai não queria falar comigo e a minha mãe não sabia o que dizer-me. Instalei-me no moinho. A Rosa Maria e Deolinda iam lá levar-me comida, roupa lavada e pilhas para o rádio que era a minha companhia. Os dias que lá passei duravam como meses ou anos. Ouvia rádio baixinho, lia alguns livros, escutava os pássaros. Passava muito tempo a contemplar as fotografias do Manuel e do Diogo, que trazia na carteira. O Manuel com o seu olhar contundente, o bigode eriçado, os pêlos do peito espreitando da camisa aberta; o Diogo de barba feita, com um sorriso tímido embrulhado no fato e gravata. Falava com eles. Por vezes, a expressão dos retratos parecia alterar-se ligeiramente, como se reagissem às minhas palavras. Esses momentos solitários em que nada acontecia parecem-me, ainda hoje, mais reais do que tudo o que veio a acontecer: a revolução acabou e também a ilusória eternidade da juventude.
O Manuel saiu de Peniche, eu voltei à universidade, o país enveredou pela democracia que é a nossa. Eu casei e tive dois filhos (a Luísa e o Rodrigo). Não do Manuel, mas do João, um médico veterinário que conheci em Viseu, onde fui colocada a dar aulas. O Manuel também casou – com uma americana que conheceu em Bruxelas, onde foi trabalhar como funcionário da União Europeia, depois de uma curta carreira de advogado em Lisboa. O Diogo casou, teve três filhos e tornou-se um católico empenhado. A sua actuação como advogado chamou a atenção de uma multinacional norte-americana que o convidou para dirigir os serviços jurídicos das filiais em Portugal. Ainda não me convenci que o seu despedimento teve alguma relação com as suas manifestações contra a intervenção dos Estados Unidos no Iraque, embora seja certo que a sua empresa possui interesses económicos naquele país. Mesmo, assim, surpreendi-me de o ver, nas últimas eleições, a fazer campanha pelo Bloco de Esquerda. Quando ao Manuel, trocou Bruxelas por Bagdad, onde se encontra a trabalhar como consultor a convite do sogro, um milionário do petróleo.
Na sexta-feira passada a morte do meu pai fez-me regressar aos lugares da minha infância e adolescência. Depois do funeral, passeei sozinha por montes e vales. Voltei a entrar no moinho. Lembrei-me que acabara por guardar as duas fotografias numa cigarreira que escondi numa fenda da parede, junto ao chão. Tirei a cigarreira, abri-a, temendo o confronto com os retratos que sabia ali guardados há trinta anos. As minhas mãos tremiam. Eu não sabia o que lhes dizer. Mas será que eles me diriam alguma coisa ? Abri a cigarreira. O Manuel, muito sóbrio na sua camisa branca e gravata amarela, fazia um sorriso de cortesão chinês. Diogo deitou-me com um olhar esfuziante, o cabelo revolto, a boca aberta como se cantasse.