E o esplendor dos mapas

"E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta" - Álvaro de Campos eoesplendor@hotmail.com

Nome: João Miguel Almeida
Localização: Lisboa, Portugal

Terça-feira, Maio 31, 2005

Música de piano para Kafka

À volta da personagem do «piano man» vai-se construindo um enredo que imita a ficção. Neste caso, as narrativas de Kafka. Ao «piano man» podia chamar-se simplesmente P. Uma letra e um ponto final. A sombra de um nome. Como K. – a personagem que atravessa a maior parte das narrativas de Franz, o escritor de Praga. P. e K. são filhos da Republica checa, personagens presas no labirinto de um processo que lhes roubou o sentido e confrontou com o absurdo sem lhes negar a esperança. Ambos pedem ou aguardam uma explicação e fazem-nos cúmplices desse pedido ou dessa espera. P. foi reconhecido como um pianista checo, com formação em música clássica, que tocou numa banda de rock. Quem o condenou à amnésia e ao exílio ? E quem nos diz que foi réu de qualquer julgamento ? Não será antes um emissário ?


O «piano man» pode ser checo Posted by Hello

Segunda-feira, Maio 30, 2005

Quero ver política na UE

«Quero ver Portugal na CEE» era o refrão de uma canção pop dos anos 80. Já estamos neste Europa que começou por ser económica e se tornou também monetária, burocrática e jurídica. Faltava à União Europeia ser política. Começou a sê-lo ontem à noite, com o «NON» francês ao tratado constitucional europeu. Quer ver política na UE.

Domingo, Maio 29, 2005

Maffesoli versus Ratzinger

A «Pública» de hoje traz uma entrevista ao sociólogo Michel Mafesoli que vale a pena ler. Em primeiro lugar, por o sociólogo pôr em causa algumas ideias feitas como a de vivermos numa sociedade individualista. Mas também porque Mafesoli personifica a ideia de «pós-modernidade» que Bento XVI pretende combater. Ambos pretendem protagonizar uma batalha cultural na Europa. Mas esta batalha está repleta de armadilhas e equívocos.
Um destes equívocos é justamente a separação que Mafesoli estabelece entre um cristianismo asséptico e uma mentalidade religiosa trágica. É uma distinção que vem de Nietzche, embora este muito deva ao seu mestre cristão Schoppenhauer, por muitos considerado um precursor do existencialismo. Basta pensar em títulos de Unamuno: «O Sentimento Trágico da Vida», «A Agonia do Cristianismo», para apreender as intersecções entre a mentalidade trágica e a cristã.
Outro equívoco é uma mitificação histórica do paganismo. Passo a citar: «Comparo muito a nossa pós-modernidade ao fim da decadência romana, com a emergência de uma nova civilização, fecundada pelas invasões bárbaras. E penso que, actualmente, são bárbaras as práticas juvenis.» Uma das características desta atitude bárbara seria o desinteresse pela política, pois a política herda a aposta judaico-cristã no futuro. Acontece que as épocas áureas da República romana e da democracia grega foram pagãs. Se Mafesoli prefira o paganismo dos Vândalos ao paganismo de Péricles deve assumi-lo. Que ligue o regresso e a valorização do corpo aos tempos bárbaros e selvagens e não ao passado greco-latino reabilitado durante o período da Renascença é outra opção, a qual não resulta apenas da análise sociológica mas de um ponto de vista cívico, político e filosófico com o qual discordo.

Sexta-feira, Maio 27, 2005

O terror nipónico

A imprensa nipónica exulta com a descoberta de dois antigos combatentes japoneses da Segunda Guerra Mundial que foram descobertos vivos nas Filipinas. Ao que parece, adaptaram-se à vida de uma comunidade primitiva e falavam perfeitamente a língua local. Não davam notícias porque tinham medo de serem punidos por deserção. A notícia faz-nos sorrir. Até que a relemos e não encontramos nela o que esperávamos: o desconhecimento de que a Segunda Guerra Mundial já acabou e com resultado desfavorável para o Japão.
Se os homens sabem que o Japão perdeu a guerra por que é que não voltam ? Qual é o medo ? Estas perguntas obrigam-se a rebuscar na memória imagens do Japão em guerra. Excluo as que me vêm dos filmes norte-americanos e fico com um único filme: «O Mais Belo», de Akira Kurosawa, realizado em 1944. Vale a pena ver. O realizador que ficará na história do cinema como o grande humanista japonês realizou este filme para exaltar o esforço de guerra nipónico. A história passa-se numa fábrica de armamento onde trabalham voluntários. Começa com a notícia de que é necessário mais armamento para travar uma fase decisiva da guerra. As quotas de produção são aumentadas para homens e mulheres, mas em proporção menor para estas. A notícia é recebida com tristeza no sector feminino. As operárias voluntárias pedem para ser recebidas pelo chefe e explicam-se: não é justo que o aumento da sua quota de produção seja inferior ao aumento para os homens. A reivindicação é atendida. Elas ficam todas contentes. O resto do filme é a batalha heróica destas voluntárias para atingir a meta da produção. O clímax dá-se quando uma das personagens, órfã de mãe, recebe a notícia de que o pai morreu. É autorizada pelo chefe a ir ao funeral. Mas ela replica: o seu compromisso é com o colectivo japonês. Por isso, em vez de ir ao funeral do pai, fica a fazer horas extraordinárias na fábrica.
Em que é que pensam estes dois japoneses adoptados por uma comunidade primitiva das Filipinas ? Por que é que acham que uma derrota militar do Japão não é razão suficiente para voltar ao seu país ?

Quinta-feira, Maio 26, 2005

O ataque aos funcionários públicos

A eliminação de alegados «privilégios» dos funcionários públicos pelo Governo de Sócrates é sinal de uma falsa noção de justiça e de falta de sensibilidade liberal. O primeiro-ministro afirma que a sua intenção é aproximar as regalias sociais dos funcionários públicos às dos trabalhadores do sector privado. Deste modo, estar-se-ia a corrigir uma «desigualdade». O PCP já veio dizer que se tratava de um «nivelamento por baixo». Para mim, o problema essencial nem é este.
O que está em causa é a captação para o sector público de jovens quadros qualificados e o reconhecimento da diversidade de motivações na escolha de carreiras. Explico-me: em princípio, um jovem quadro de qualidade pode ganhar muito mais se escolher uma carreira do sector privado do que se enveredar pela administração pública. Simplesmente, ao contrário do que querem fazer crer tantos «pseudo-liberais» o dinheiro não é a única motivação. É legítimo que na escolha do emprego por uma pessoa o salário não seja o factor mais importante. O género não é indiferente a esta questão. Uma mulher que opte por ter filhos pode entender que um emprego na administração pública é a melhor maneira de conciliar o trabalho e a família.
José Sócrates está a acabar com regalias da função pública ao mesmo tempo que congela as progressões na carreira e contém os salários. Ou seja, está a eliminar razões para quadros de qualidade preferirem a administação pública ao sector privado. Concluindo: ainda que sustente o contrário, Sócrates está a contribuir decisivamente para a degradação dos recursos humanos do sector público e, por consequência, dos serviços que prestam à comunidade.

Quarta-feira, Maio 25, 2005

Sócrates no purgatório

Ao anunciar a sua política orçamental, Sócrates perdeu o estado de graça e caiu no purgatório. A ideia de centro como lugar equidistante entre as posições de esquerda e de direita revelou-se quimérica. A esquerda ataca-o por não «fazer os ricos pagar a crise». A direita por não resolver o problema do défice do lado da despesa e levar a cabo um agravamento fiscal que põe em causa a competitividade económica.
Entre dois fogos, o centro de Sócrates revela-se cada vez mais exíguo. Mas há também um problema central no percurso de Sócrates que tem a ver com a própria credibilidade democrática: o candidato a primeiro-ministro prometera não aumentar os impostos. É certo que a dimensão do défice de 2004, de 6,83 por cento, superou as piores expectativas. Para não se contradizer, bastava-lhe ter introduzido um matiz: não aumentava os impostos a não ser que uma situação excepcional o justificasse. Simplesmente, esse matiz podia ter-lhe custado a maioria absoluta. Agora Sócrates estaria a negociar a sua política orçamental com outras forças partidárias.
Sem matiz, Sócrates obteve a maioria absoluta e tem carta branca para fazer o que quiser durante quatro anos. Inclusivé, aumentar o preço dos combustíveis, um imposto cego que penaliza tanto a competitividade das empresas como o consumo privado, tanto o condutor desportivo como o pai de família que usa o carro utilitário para pôr o filho na escola ou chegar a horas ao emprego.
O descontentamento social e a contestação política vão aumentar. Manifestar-se-ão já nas próximas eleições presidenciais. As clivagens à esquerda crescerão durante esta legislatura. Será um tempo de vacas magras e de lobos esfaimados.

Terça-feira, Maio 24, 2005


A força do diálogo Posted by Hello


A Força está com o Toa Posted by Hello

Segunda-feira, Maio 23, 2005

Deu-lhe com pouca Força

George Lucas fraqueja em A Vingança dos Sith. É verdade que o filme está uns furos acima de Ameaça Fantasma (1999) e o O Ataque dos Clones (2002). Mas é impossível imaginar qualquer entrave para Lucas fazer um grande filme. Ele tinha todos os meios financeiros, tecnológicos e artísticos. Podia, inclusivé, assumir a sua condição de produtor e entregar a realização a qualquer dos excelentes especialistas em filmes de aventuras de Hollywood. Não posso deixar de imaginar o que seria este material nas mãos de Coppola, Spielberg, Ang Lee, John Carpenter, Tim Burton (já que realizou um «Batman»), Quentin Tarentino, etc.
Lucas parece querer libertar-se da fama de «escapismo» e de ter descido o nível etário do público alvo dos dois últimos filmes, realizando um filme sério sobre as transformação de regimes democráticos em ditaduras. Mas é justamente no tom que A Vingança dos Sith apresenta maiores fragilidades. Na primeira trilogia da série havia o clássico contraponto entre a nobreza heróica de algumas personagens (Luke Skywalker) e o lado picaresco da dupla de robôs K-3PO e R2-D2 ou a personagem mais errática de Hans Solo. No último filme, o R2-D2 ainda faz alguns números cómicos, mas as outras personagens levam-se todas muito a sério. Quando se passam ou revelam o seu lado maligno exageram nos esgares, resvalam para o cabotinismo e chegam a provocar o riso involuntário. As linhas gerais da história são boas, mas os diálogos de uma mediocridade confrangedora.
O «casting» tem grandes trunfos, como Natalie Portman no papel de Padme Amidala. Recentemente, Closer bem mostrou o que ela é capaz de fazer de uma personagem com um lado obscuro. Uma mulher atraída pelo futuro Darth Vader não terá um lado sombrio, ainda que inconsciente ? Lucas passa ao lado do que podia ser o núcleo dramático do seu filme.
Apesar de todos os fracassos, vale a pena ver o filme: pelo verdadeiro ritual que é ouvir de novo aquela música ou a respiração pesada de Darth Vader. Há sequências memoráveis como o combate entre Anakin e Obi Wan Kenobi flutuando sobre torrentes de lava incandescente. Ou as imagens de Darth Vader erguendo-se do corpo carponizado de Anakin alternando com as da morte de Padme e o nascimento dos dois gémeos. Encaixaram-se as últimas peças no «puzzle». É pouco para ser sublime. Mas suficiente para nos dar uma sensação de alívio.

Domingo, Maio 22, 2005

A ética trágica de Ricoeur

«A ética, que eu sustentava ser mais fundamental do que qualquer norma, é definida do seguinte modo: o desejo de viver bem com e para os outros em instituições justas. Esta definição tripla une o si na sua capacidade original de estima pelo outro, manifestada pela sua face, e para um terceiro envolvido que é o portador de direitos nos planos jurídicos, sociais e políticos. A distinção entre duas espécies de outro, o “tu” das relações interpessoais e o “cada um” da vida no contexto das instituições, parecia-me ser suficientemente sólida para permitir a passagem da ética para a política e fornecer uma base de sustentação suficiente aos meus ensaios antigos ou contemporâneos sobre os paradoxos do poder político e as dificuldades inerentes à ideia de justiça. Quanto à passagem que da ética para a moral, com os seus imperativos e as suas proibições, isto parecia-me ser reclamado pela própria ética, logo que o desejo de uma boa vida se confronta com a violência sob todas as suas formas. À ameaça da violência responde a proibição: “Não matarás”, “Não mentirás”. Por fim, a sabedoria prática (ou a arte do juízo moral situado) parecia-me ser exigida pela natureza particular dos casos, por intermédio de conflitos entre os deveres, por meio da complexidade da vida em sociedade onde a escolha é mais vezes entre tonalidades de cinzento do que entre preto e branco, e, finalmente, uma das situações a que chamo situações de angústia, nas quais a escolha não é entre bem e mal, mas entre mal e pior.»
RICOUER, Paul, «Autobiografia intelectual» in Da Metafísica à Moral, Lisboa, Instituto Piaget, 1997, pp. 132-133


Paul Ricouer (1913-2005) Posted by Hello

Sábado, Maio 21, 2005

Humilhações convencionais

O exército norte-americano anda em polvorosa para provar que não tem nenhuma responsabilidade na divulgação das fotos de Saddam Husseim em cuecas. Há aqui uma bizantinice que me escapa. A violação das convenções de Genebra é óbvia. Mas estas convenções não continuam a ser desrespeitadas, como todos sabem, na Base de Guantánamo ? Será que a diferença está no estatuto de «chefe de Estado» de Saddam Husseim ? Mas este não começou por ser humilhado com a divulgação das fotos da sua captura ? Para quem já não se lembre, as imagens de um Saddam Husseim acossado e piolhoso, vivendo num buraco como um animal, correram mundo. Será que o problema é a reacção de Condoleezza Rice às cuecas de Saddam ? Como seria a reacção se ele usasse boxers ?

Sexta-feira, Maio 20, 2005

Piruetas no Eixo do Bem

Vale a pena ouvir aqui a entrevista da TSF a Ivo Ferreira sobre a sua experiência no Dubai, esse país que, segundo George W. Bush, se situa no Eixo do Bem. Entretanto, os norte-americanos continuam a fazer habilidades circenses no dito Eixo. A última foi mostrar Saddam Hussein em cuecas. As fotografias saíram no jornal Sun e foram, obviamente, tiradas por militares norte-americanos para serem divulgadas desmoralizando os adversários. É o tipo de coisas que Bush acha apropriada na sua cruzada pelos direitos individuais, a liberdade e a dignidade humana, ou seja, a civilização ocidental.

Quinta-feira, Maio 19, 2005


Que a Força esteja connosco Posted by Hello

Quarta-feira, Maio 18, 2005

A ditadura do futebol

Neste país em que se fala tanto dos direitos das minorias e tanta gente se vitimiza há uma minoria cujos direitos são desprezados, a voz silenciada e a simples existência encarada com repugnância. Refiro-me, como é óbvio, à minoria que não gosta de futebol. Em rigor, nem pertenço a esta minoria. Gosto de futebol moderadamente. Em princípio, assisto aos jogos internacionais. Hoje lá vi a disputa da taça UEFA entre o Sporting e a CSKA e preferia que o Sporting ganhasse ou, pelo menos, que não perdesse 3-1.
Se está deprimido por o Sporting não ter ganho, pense como é que estaria se pertencesse à minoria que não gosta de futebol. Este simples exercício imaginativo só lhe poderá causar horror ou admiração. Os judeus têm Israel; os negros o SOS racismo; os imigrantes várias instituições de apoio, laicas e religiosas; os gays e lésbicas as suas associações. Mas quem é que vale à minoria que não gosta de futebol ? Está bem, torceu pelo Sporting e a sua equipa perdeu, mas outros jogos virão e outras taças poderão ser ganhas. No entanto, esses jogos e taças que são motivo de esperança para si, são razão de suplício para a minoria que não gosta de futebol.
É que, ainda por cima, é raro o problema social português que não parece ser agravado pelo futebol. O défice orçamental, por exemplo. Já alguém reparou que o ano em que o défice atingiu sete por cento foi o do Euro 2004 ? Fala-se em contenção de despesas públicas depois de se ter gasto o dinheiro dos contribuintes, incluindo da minoria que não gosta de futebol, a construir dez estádios luxuosos. Mas se o tema do choradinho for a crise da democracia ou a crescente insegurança, esta minoria ouve bater a mesma tecla: parte dos skinheads que integram a extrema-direita portuguesa milita em duas claques futebolísticas: os Diabos Vermelhos, do Benfica, e o grupo 1143, do Sporting. Os discursos moralistas contra os maus estacionamentos só podem provocar um sorriso céptico na minoria mais descriminada: durante o período dos jogos decreta-se tacitamente um período de impunidade para todas as transgressões e as zonas em torno dos estádios mergulham num caos de trânsito temporário. Se alguém que não gosta de futebol vive ao pé do estádio, mais vale adiar encontros ou marcar para outro dia saídas que impliquem regressos em horas de bola. O stress causado pela procura de estacionamento é de evitar. O alcoolismo tem a ver com futebol. A violência doméstica está relacionada com o jogo da bola. Quantas mulheres não se arriscam hoje a apanhar de maridos ou namorados que beberam demais por causa da derrota do Sporting ?
É mais fácil um padre como Mário de Oliveira criticar Fátima ou um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um atleta denunciar o mundo do futebol. Uma vez vi na televisão o grande Carlos Lopes, medalha de ouro de maratona nos Jogos Olímpicos, a dizer que respeitava os jogadores de futebol mas não tinha dúvidas de que preparação física de um maratonista era muito mais exigente. Riram-se dele. Qual Mourinho, qual quê. O Carlos Lopes é que é.

Terça-feira, Maio 17, 2005

Resposta da Paula

Meu querido João,
Não faltei ao prometido e assim que cheguei à Fundação, fui ver o teu blog...Não consigo concluir nada sobre quem será a eleita, em contrapartida sobre ti... Não há dúvida que o meu Amigo está apaixonado, não sei se com amor ou com paixão. O número de vezes que li a palavra "doce" em várias mensagens do blog, o passeio pela Quinta das Conchas, o soneto de Camões (que imagino seja dedicado por ti a alguém), revelam-me a tua exaltação. Sabes que sou curiosa, sobretudo porque julgo tratar-se de alguém que conheço. Mas o único palpite que tive foi acerca da *** ****** e tu praticamente já disseste que não era ela. Seja quem for, dedicou-te um poema lindíssimo do Chico Buarque... «A ternura é húmida» dizia Raul Brandão. Respira-se ternura no teu blog...
Paula

Segunda-feira, Maio 16, 2005

Recado à Paula

Cara Paula B. S.

Espero que, tal como disseste, hoje vejas o meu blogue, à procura da tal pista sobre a minha vida sentimental. Aqui está o post de hoje:
É refrescante descobrir no verão que há um verão no coração de cada estação.

Domingo, Maio 15, 2005

O regresso de Ridley Scott

No momento em que cinéfilos de todo o mundo aguardam o desfecho da saga da «Guerra das Estrelas», convém lembrar que Ridley Scott realizou dois dos melhores filmes de ficção científica do último terço do século XX: «Blade Runner» e «Alien, o oitavo passageiro». Em minha opinião os únicos que disputaram a visão do futuro de George Lucas. «Dune» de David Lynch era outra hipótese, mas é um filme relativamente falhado. «Matrix» arrancou bem mas esgotou-se nas sequelas. «Minority Report» é um bom thriller mas não atinge o nível mitológico de «Blade Runner».
Ridley Scott é um autor de altos e baixos, que nos deu os dois já citados filmes de ficção científica, além de «Thelma & Louise», mas também outros justamente esquecidos. «O Reino dos Céus» encontra-se a meio da tabela, como aliás o «Gladiador».
Paisagens belíssimas, cenas de acção trepidantes, personagens com problemas existenciais que recebem ou se atribuem o desempenho de uma missão. São os ingredientes que Ridley Scott costuma usar nos seus filmes e volta a combiná-los com acerto. O género histórico permite-lhe juntar a lenda e o pormenor brutal, sem comprometer o efeito de «suspensão da descrença». Ainda assim, o argumento contém algumas incongruências. É cómico que haja um esforço tão grande de compreender o «outro» muçulmano e se reduza o «outro» francês à caricatura.
Deslizes à parte, o realizador arrisca-se, em tempos de «guerra de religiões e civilizações» a meter uma tese universalista num filme histórico de acção: é mais forte o que une os homens de boa vontade, seja qual for a sua crença, do que o que os separa do ponto de vista religioso. Ironicamente, o «realizador de acção» Ridley Scott, neste filme, mostra-se bem mais consciencioso do que o «realizador comprometido» Oliver Stone no seu «Alexander», filme em que o delírio épico submerge toda a veleidade crítica.


O Reino dos Céus Posted by Hello

Sexta-feira, Maio 13, 2005

Mesmo aqui ao lado

Hoje não vou escrever sobre países exóticos ou montanhas distantes. Passei a tarde a escrever um texto e, à hora do lanche, dei um passeio pela reabilitada Quinta das Conchas e dos Lilases. Apesar das frágeis nuvens, o sol inundava o relvado, recortava sombras nas árvores, cintilava levemente na água do lago. Gostei do ar tranquilo, arejado e limpo da Quinta das Conchas. Faço votos de que se mantenha assim, não se transformando noutra área de marginalidade, como tende a acontecer nos espaços verdes da capital.


O esplendor da Quinta das Conchas Posted by Hello

Quinta-feira, Maio 12, 2005

A culpa é do macaco ?

O que falta a muitos portugueses não são lições, mas boas ilações. «Lição» foi o substantivo que surgiu na boca de Ivo Ferreira depois de ter obtido a clemência do Sheik do Dubai que o livrou de passar quatro anos na cadeia por fumar haxixe. Mas que «lição» tirou Ivo Ferreira do episódio ? Segundo o cineasta citado pelo «Público», o Ministério dos Negócios Estrangeiros devia informar melhor os portugueses das leis vigentes nos outros países. Não lhe passa pela cabeça usá-la para evitar sarilhos.
Já Martins da Cruz achou elegante lembrar que Ivo Ferreira tinha mesmo transgredido uma lei do Dubai. Como se este Martins da Cruz porta-voz da autoridade e da moral não fosse o mesmo que «contornou» a lei vigente em Portugal para meter uma filha na Faculdade de Medicina.
Não sei por onde os portugueses têm de ir para aprender as lições da vida. Tenho a certeza de que o «Feng-Shui» não é o caminho certo. Eu até tenho alguma simpatia pelas sabedorias alternativas. Acho na mesma surrealista que uma «pró-ordem» dos professores organize uma série de palestras intitulada «Dicas para ser melhor professor», no Centro Cultural Casapiano, para exaltar a importância do «Feng-Shui» e dos signos dos alunos na melhoria dos processos de aprendizagem. Talvez tudo se trate de um equívoco. Talvez a expressão «pró-ordem» não se refira a uma hipotética Ordem dos professores e apenas à ordem dos móveis. Caso contrário, se estes «prós» se viessem a constituir em Ordem ainda poderiam excluir do ensino alguém por falta de conhecimentos de «Feng-Shui» ou de astrologia.
Em Portugal não só não há uma cultura da responsabilidade como a expressão «a culpa é do macaco» não nos serve de consolo. Nos Estados Unidos, grande parte da população continua convencida que Deus criou o mundo em seis dias. Nesse aspecto, somos mais evoluídos. Sabemos que há um macaco dentro de cada um de nós.

Quarta-feira, Maio 11, 2005

Parabéns ao Goffredo

Este muito atarefado bloguista dá os parabéns via internet ao Goffredo, que já é doutor por extenso.

Balada do Café Triste

A pequena obra-prima de Carson McCullers traduzida por José Rodrigues Miguéis:

«A estrada de Forks Falls fica a três milhas, e é aí que trabalham os presos. A estrada é de alcatrão e as autoridades municipais decidiram tapar os buracos e alargá-la numa curva mais perigosa. O grupo é composto por doze homens, todos vestidos com os fatos às riscas brancas e pretas, agrilhoados nos tornozelos. Há um guarda, de olhos vermelhos semi-cerrados, por causa da luz intensa. Os presos trabalham todo o dia; chegam ao nascer do sol amontoados no carro celular, e partem ao anoitecer. Durante o dia, ouve-se o ruído das picaretas batendo no chão de argila, sente-se o sol forte e o intenso cheiro a suor. Há música todos os dias. Começa, a medo, uma voz soturna, como que fazendo uma pergunta. Passados uns momentos, outra voz, a que depressa se junta o resto do grupo. As vozes são sombrias apesar da luz do sol ser intensa, e a música mistura, estranhamente, tristeza e alegria. O canto avoluma-se de tal maneira que não parece vir do grupo de doze homens, mas brotar da própria terra, ou cair do céu. É uma música que dilata o coração de quem ouve e provoca estremecimentos gelados de medo e êxtase. Depois, lentamente o canto esmorece até restar apenas uma voz isolada, depois um som rouco de respiração, o sol, e o som das picaretas batendo no silencio da estrada.
E que espécie de grupo é este, capaz de criar música assim ? Apenas doze homens mortais, sete pretos e cinco brancos, rapazes da região. Apenas doze mortais juntos numa estrada».
MACCULLERS, Carson, Balada do Café Triste, Lisboa, Relógio d´Água, s.d., pp. 74-75

Segunda-feira, Maio 09, 2005

Deus melhora

Admira-me que nos sessenta anos de comemoração do fim da Segunda Guerra Mundial e numa altura em que um filme sobre «Os Últimos Dias de Hitler» se encontra em exibição, não tenha visto na comunicação social referências ao ambiente de tonalidades surrealistas com que Portugal viveu a derrota das potências do Eixo.
Para quem não sabe: o «excesso de zelo» protocolar do embaixador Teixeira Sampaio, secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, levou-o a ordenar, em 2 de Maio de 1945, a colocação das bandeiras nacionais a meia haste em sinal de luto pela morte de Hitler. Está criado um incidente diplomático que causa vivas reacções internacionais, logo aproveitadas pelos opositores ao Estado Novo. Os diplomatas portugueses ficam consternados. Salazar telegrafa-lhes a seguinte mensagem: «Hora a hora Deus melhora».
Só Deus sabe o que Salazar queria dizer com tal mensagem. Mas faz sentido compará-la com o desabafo de Marcello Caetano já no exílio brasileiro, quando lhe falavam na possibilidade de voltar para Portugal: «Fia-te na Virgem e não corras». Numa situação de desespero, Marcello invocava a figura doce da virgem e ainda assim com maior confiança nas suas pernas. Salazar invoca a figura de um Deus ainda mais poderoso do que o omnipotente, pois esse, sendo eterno, não pode melhorar hora a hora. O ditador português parecia acreditar no absurdo: que os Estados Unidos, um país que nascera da afirmação das liberdades individuais e da revolta contra o domínio colonial do Reino Unido, seria capaz de assegurar a sobrevivência de um regime autoritário e colonial. O absurdo estava certo. E foi crescendo, hora a hora.

Sábado, Maio 07, 2005

Vícios

«A alma é um vício», a frase de Agustina Bessa-Luís em Fanny Owen que Manoel de Oliveira cunhou em Francisca, encontra-se definitivamente datada. No século XIX a alma talvez fosse um vício. No século XXI, em Portugal, a alma é um luxo e o vício da maioria dos portugueses é o crédito. Um amigo meu, que trabalha numa livraria, contou-me que alguns clientes compram o seu Expresso semanal com o «visa». Que comprassem uma assinatura anual de um periódico a crédito ainda se compreendia: pagavam juros mas beneficiavam de um desconto. Contrair uma dívida todas as semanas para comprar um jornal não faz sentido. Será que estes clientes também compram tabaco a crédito e pastilhas elásticas a crédito ?
Céline escreveu A Morte a Crédito. Se fosse português escreveria a vida a crédito. Ou seja, não poderia ser Céline, pois a vida lusitana a crédito não deixa de ser uma vida confortável e sonhadora, protagonizada por personagens pitorescas e amáveis.

Sexta-feira, Maio 06, 2005

A inquietação turca

Anteontem, durante a visita oficial de Schroeder à Turquia, Erdogan, o primeiro-ministro daquele país, manifestou uma «profunda inquietação» do seu Governo acerca do apelo do Parlamento alemão para que reconhecesse o massacre dos arménios em 1915.
Sou dos que defende a entrada da Turquia na Europa, mas não subestima os problemas, perplexidades e perigos que tal facto acarreta. Em nome da integração do outro «turco» podemos estar a favorecer a discriminação do «outro» arménio ou curdo. A questão não é só saber se uma Turquia na União Europeia seria benéfica para os turcos que já circulam e trabalham neste espaço, mas se também o seria para as minorias étnicas que vivem neste país.
Quanto ao perigo para a alegada «identidade cristã», só o vejo como um fantasma. Até porque esta identidade cristã não foi, na História da Europa, apenas factor de unidade, mas também de fractura: divisão entre o cristianismo ocidental romano e o cristianismo oriental ortodoxo; divisão entre o Sul Católico e o Norte protestante. A Europa é incompreensível sem o Mediterrâneo, cuja orla africana é islâmica. O facto é ainda mais evidente visto da Península Ibérica, espaço geográfico no qual cristianismo e islamismo coexistiram e disputaram o território durante séculos deixando marcas indeléveis.
A União Europeia tem reunido num espaço político e económico as heranças fragmentadas do cristianismo católico, protestante, ortodoxo, assim como do judaísmo. Não há razão para não fazer o mesmo com um Estado onde a maioria da população é islâmica. Se actualmente já muitos islâmicos vivem em França é justamente porque este país e a Argélia se encontram unidos pela História.
Nada mais urgente do que refutar a tese da «guerra das religiões» e mostrar que o islamismo é compatível com um Estado laico, de Direito, democrático. Para que tal aconteça não basta recusar preconceitos – é preciso constatar evoluções.

Quinta-feira, Maio 05, 2005

Boas Novas para Lisboa

A candidatura independente de José Sá Fernandes à Câmara Municipal de Lisboa é uma boa notícia.
Em tempos de partidocracia e de profissionalização das carreiras políticas é saudável que um cidadão comprometido com o bem-estar da sua cidade, que fez carreira como advogado, se apresente aos lisboetas como uma alternativa aos candidatos oficiais dos partidos políticos.
Em tempos de confusão entre atitude crítica e o ruído inconsequente dos «treinadores de bancada» é bom que quem foi um crítico responsável mostre que também pode ser um responsável político.

Terça-feira, Maio 03, 2005

Razões para ouvir cantar por detrás das cortinas

Porque não conheço outro filme com chineses a falarem a língua mais doce do mundo, o italiano.
Porque não há filme com piratas mais feios nem piratas mais belas.
Porque Bud Spencer, antigo ídolo de filmes de aventuras para miúdos, pisca o olho à criança que sobrevive em nós.
Porque é um filme cheio de teatro.

Segunda-feira, Maio 02, 2005


Cantando por detrás das cortinas Posted by Hello

Domingo, Maio 01, 2005

As neves perdidas do Kilimanjaro

Quando um amigo me disse que as neves do Kilimanjaro, a montanha mais alta de África, tinham desaparecido nem quis acreditar. «Desaparecidas, como ?», perguntei, como se alguém as pudesse ter roubado durante a noite. «O aquecimento global». A notícia estará algures por aqui, na Net. Já fiz uma pesquisa e não a encontrei. Mas acredito no meu amigo.
O livro de viagens sobre o Kilimanjaro, datado de 2003, já avisava que as neves estavam a encolher. Teriam encolhido 82 por cento desde 1912 e 33 por cento desde 1989. Os cientistas mediam o fenómeno mas não apresentavam soluções. Os nativos explicavam a retracção das neves de outros modos: para uma velha Moshi, Mama Judite Iyatuu seriam os maus olhos dos turistas brancos que derreteriam o gelo; Mzee Ruaici Tomás, da aldeia de Meela acreditava que o desaparecimento das neves era sinal do descontentamento de Deus com a espécie humana. Uma explicação com sentido, pois o Kilimanjaro era considerado a «Casa de Deus».
A nudez do cume do Kilimanjaro é um sinal de tempos de globalização desencantada, de evaporação da graça. Sob a mágica neve, a rocha dura e seca como a humanidade sem alma.