«Outubro 1872
Deu-se ultimamente um facto singular: o soldado Barnabé mata o seu alferes com um tiro e é, pelo Conselho de Guerra, condenado a ser passado pelas armas. Imediatamente a imprensa apossa-se vorazmente deste facto e, durante um mês, trava-se entre sanguíneos e linfáticos esta discussão: deve o soldado Barnabé ser fuzilado ? Deve o soldado Barnabé conservar-se vivo ? E, no entanto, na sua prisão, o soldado Barnabé espera que os senhores jornalistas e curiosos decidam – se ele pode continuar a aquecer-se ao sol, ou deve ser encostado a um poste e atravessado por balas.
Podia supor-se ainda que o soldado Barnabé, na reclusão mortuária da sua casamata, não conheceria esta discussão, que é para ele alternadamente – bandeira de misericórdia e dobre de finados. Mas qual ! O soldado Barnabé conhece os jornais. O soldado Barnabé lê os jornais e, o que é pior, tendo um correspondente improvisado sobre ele uma anedota excessiva, o soldado Barnabé escreveu para os jornais. O soldado Barnabé rectificou. De modo que devemos crer que ele todas as manhãs abre a gazeta e vai procurar no artigo de fundo, soletrando a prosa florida – a probabilidade de viver ou a probabilidade de morrer !
Ora os que pedem a comutação da pena, compreendem-se, têm por si a beleza do sentimento: é a piedade, o respeito pela vida, o ódio das penas irreparáveis – que vivem e suplicam na sua prosa. São simpáticos, são sensíveis.
Mas os senhores sanguinários que pedem a morte, em que se fundam ?
Na disciplina militar.
E é a primeira vez em Portugal que a disciplina se estreia como razão. Nunca fora invocado este personagem: desde a deserção do soldado até à insurreição do general – tudo se tem passado tranquilamente, sem que a disciplina se adiante a reclamar os seus direitos. Estava há tanto tempo calada, tácita, inactiva, indiferente, desinteressada, que todos supunham que ela pedira a sua reforma e gemia, nos subúrbios, um reumatismo antigo. Mas trata-se de uma vida – e vemos de repente, surpreendidos, a disciplina aparecer entre as colunas dos jornais e pedir essa vida em seu nome e para sua garantia. Sem o que a disciplina não responde por si. Ou lhe dão o soldado Barnabé crivado de balas, ou a disciplina se rebaixa inteiramente, e publicamente, nas ruas, se desabotoa.
Esta aparição da disciplina, que nunca ninguém vira, é tão singular que o movimento instintivo é olhar para ela. E que desilusão! Vindo pedir sangue – podia supor-se que ela vinha forte, musculosa, asseada, correcta, intacta, pudica e grave. Qual ! Vem trôpega, caturra, esfarrapada, ensebada, esmouçada, babando-se e pedindo sangue para se reconfortar, como um mendigo escavacado pede um caldo. Um copo de sangue para a disciplina ! E todo o mundo se admira que ela não prefira meio de Lavradio !
Entendamo-nos com disciplina. Ela tem em nós dois respeitadores imutáveis. Ela é a honra activa do exército, a sua consciência, a sua dignidade. Para ela se manter intacta e perfeita, se forem necessários cadáveres, encostem-se homens ao muro e forme-se o piquete de execução; nós não temos o respeito sentimental e lírico da vida humana, ou antes, temos o respeito excessivo da vida pública e social, para hesitarmos em lhe sacrificar Barnabé ou João. Mas o que é necessário é que disciplina militar, que vem pedir essa vida para garantia da sua conservação, seja verdadeiramente e legitimamente a disciplina militar: isto é – a disciplina perfeita, sem nódoa, virgem de deserções e de revoltas, sem defecções e sem traições, tendo a religião da lei até à superstição, a obediência do dever até à minuciosidade, rigorosa, exemplar, intacta, rígida e prussiana. Se esta disciplina, para se conservar assim, pede sangue, atirem-se-lhe baldes de sangue.
Mas se é uma disciplina exautorada e desmoralizada, desfigurada e poluída por todas as revoltas e todas as desobediências, que nos vem pedir, para se desafrontar, a execução de um homem – encolham-se os ombros. (...)
És tu que fazes os Barnabés. Quando um exército se sente desorganizar-se sem reagir, alimenta a desobediência; e como perde o brio militar, o espírito de camaradagem, a atenção pelos inferiores e o respeito pelos superiores – termina-se pelo tiro; à anarquia da disciplina segue-se a tirania da brutalidade. Um general que leva os seus soldados à revolta termina na última escala pelo soldado que dá tiros nos seus oficiais. È a quem tem melhor pontaria.
(...)
E diz-se que sem este exemplo o exército em Portugal não pode ter seriedade. Escreve-se isto. Não é mau. De modo que temos o exército sem espírito militar, sem instrução, sem manobras, sem hábitos de marcha e de acampamento, sem vigor físico, sem fé patriótica, os arsenais sem armas, a artilharia sem peças, os quartéis sem condições, as escriturações sem regularidade, os quadros sem gente, os estados-maiores sem talento, os coronéis sem fidelidade, os soldados sem disciplina – e qual é o remédio para tudo isto ? Matar o soldado Barnabé !
Nós bem sabemos que são os novos oficiais saídos das escolas e cheios de um espírito vivo – que querem este exemplo, para impedir o fim de tudo (...)
Ora se eles são enérgicos e sentem em si a força das criações proveitosas devem estar concertando a casa, vidro por vidro, e sustentando a disciplina caduca, cadáver por cadáver ? Não. Arrasem a casa e façam-na de novo. Depois se algum soldado resmungar, então sim: encostem-no ao muro e crivem-no de balas.
Até lá, sejamos mais benévolos – e não seja o pobre Barnabé que vá estrear o novo sistema de armas !»
Uma Campanha Alegre, Lisboa, Círculo de Leitores, 1980, pp. 373-376