E o esplendor dos mapas

"E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta" - Álvaro de Campos eoesplendor@hotmail.com

Nome: João Miguel Almeida
Localização: Lisboa, Portugal

Sábado, Julho 30, 2005

Colisão

À velocidade da vida, as pessoas chocam umas com as outras e chocam com elas mesmas. Surpreendem-se com os anjos e demónios que descobrem dentro de si. Uma pessoa é um trajecto em território sem estradas definidas. A qualquer momento, quando menos espera, pode enveredar por um novo caminho. E quando o faz já não é o mesmo viajante, pois cada pessoa é o seu caminho. Por que é que um dos melhores filmes deste Verão é tão pouco falado ?

Quinta-feira, Julho 28, 2005

Sede de Sol








Depois dos posts sobre o regresso de tempos sombrios, os quais parecem ter escurecido por alguns dias o próprio Verão, devia publicar uma das minhas gravuras preferidas: «Os Cavaleiros do Apocalipse» de Albert Dürer. Mas escolhi um quadro com girassóis de Van Gogh. Em tempos de sombra, temos de nos virar para o sol.

Quarta-feira, Julho 27, 2005

O poema pouco original do medo

Alexandre O´Neill escreveu publicou este poema em Abandono Vigiado (1960):

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela !)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos
Poesias Completas 1951/1986, Braga, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990, pp. 143, 144

Terça-feira, Julho 26, 2005

A vítima do medo

A morte de Jean Charles de Menezes por um política britânico com sete tiros na cabeça e um no ombro é a maior vitória alcançada pelos terroristas até hoje. Ele não foi vítima de uma acção planeada, mas do próprio medo instalado dentro de si e dos polícias. O medo irracional que levou Jean Charles a fugir da polícia saltando por cima dos torniquetes; o medo absurdo que premiu oito vezes o gatilho de uma pistola.
Esta história aconteceu no país onde os cidadãos não têm bilhete de identidade para mostrar à polícia e no qual nasceu a Amnistia Internacional, no bastião simbólico das liberdades individuais. «Quem não deve não teme» - esta máxima que muitos britânicos podiam dizer para mostrar a sua atitude face às autoridades – deixa de fazer sentido. É mesmo possível subvertê-la num sentido repugnante: «quem é branco não teme», ou «quem usa determinado tipo de roupa não teme». Sabemos que sempre houve discrepâncias entre os ideais liberais e as relações interpessoais concretas. Mas o medo ameaça agora abrir fissuras irreparáveis numa sociedade que admite polícias com turbante e tem mais negros a apresentar telejornais do que Portugal, um país que gosta de se achar muito universalista e nada racista.
Quem, ao sair de casa para entrar no metro londrino, não pensará duas vezes antes de vestir um casaco escuro, largo e almofadado como o que levava Jean Charles ? Quem, se tiver de levar um casaco desses por estar a chover e não haver outro disponível, não tentará afugentar da sua mente quer a imagem do eventual bombista quer a do polícia equivocado ? Como disse um familiar do brasileiro assassinado: «Eles mataram o meu primo, podem matar qualquer um».
Por isso, parafraseando John Donne, os sinos não dobram apenas por Charles, eles dobram pela nossa liberdade e pela nossa inocência.

Segunda-feira, Julho 25, 2005

O recomeço da História

No início da década de 90, após o colapso da União Soviética, Fukuyama lançou uma tese que deu brado: o fim da História. Não porque deixasse de haver acontecimentos, mas porque fora inaugurada uma era eterna, consumação do «processo histórico»: o demo-liberalismo triunfara dos seus adversários e não se divisava alternativa a este sistema político-económico. Na década que se seguiu percebeu-se que a ideia da impossibilidade de haver outro sistema limitava na prática as hipóteses de transformar o sistema demo-liberal por dentro, reforçando a sua componente social. Sem a ameaça do comunismo, as democracias liberais deixavam-se seduzir pelas possibilidades de acumulação num mercado mundial, livres de preocupações de redistribuição, de justiça social ou de imperativos civilizacionais. O exemplo era a superpotência – os Estados Unidos, país face ao qual a Europa, com o seu modelo social caduco, fazia figura de mau aluno.
Em 2005 é óbvio que a História recomeçou. Escreveu Jorge Almeida Fernandes no «Público» de ontem: «Os EUA não podem resolver a ameaça coreana pela força, nem “podem lidar por si sós com a ameaça terrorista”. A era unipolar, inaugurada no dia da queda do Muro de Berlim, que fez dos EUA a “única superpotência global”, está esgotada. O mundo de globalização exige uma “diplomacia multilateral”. “O unilateralismo deixa de ser uma séria e sustentável opção da política externa para os EUA”».
Do mundo que se vai definindo a meio da primeira década do século XXI não se podem tirar só ilações diplomáticas. A China pretende apenas negociar influência política e económica com os Estados Unidos e a Europa, não exportar o seu modelo político-económico. O mesmo não se pode dizer do fundamentalismo islâmico, o qual constitui um projecto de globalização que coloca em causa radicalmente os valores básicos do demo-liberalismo. A par do rival chinês e do adversário fundamentalista islâmico, recrudescem os velhos inimigos da democracia e do liberalismo: os nacionalismos de inspiração fascista. Recentemente, por razões profissionais, tenho feito pesquisa na Internet sobre figuras nacionalistas ligadas ao regime de Franco. Surpreende-me a quantidade de vezes que vou parar a sites e blogues enaltecendo essas figuras. A Internet mostra que há gente capaz de pensar e organizar apontando os problemas do presente e admirando as soluções dos países derrotados na Segunda Guerra Mundial e seus simpatizantes.
Convém lembrar que os direitos dos trabalhadores europeus não se devem apenas às reivindicações dos sindicatos mas também – e muito – ao contexto favorável de duas guerras: a Segunda Mundial e a Fria. A primeira, ao democratizar um confronto militar reformulou o equilíbrio entre deveres e direitos dos cidadãos: como negar direitos a cidadãos a quem se exige o dever de morrer pela pátria – e a quem se deve a liberdade da pátria ? A segunda levou o capital a apostar na integração dos trabalhadores no sistema para evitar a revolução.
De novo vivemos em guerra, embora esta seja uma guerra diferente das outras, ainda sem nome próprio – uma guerra larvar ou intermitente - que não é causada pelos problemas sociais das democracias liberais mas que se alimenta deles. Os nossos inimigos apresentam uma solução radicalmente diversa para os nossos problemas, dispensando sistemas democráticos ou liberdades garantidas. Negar esses problemas ou abdicar de resolvê-los só enfraquece a nossa posição e contribui para nos derrotar.

Domingo, Julho 24, 2005

Orwell sobre Inglaterra

O intelectual britâncio escreveu o seguinte texto em 1938:
«E depois a Inglaterra – a Inglaterra meridional, talvez a paisagem mais suave do mundo. Quando passamos por lá, principalmente quando nos refazemos serenamente do enjoo do mar com as almofadas macias de um comboio com ligação marítima debaixo do sim-senhor, é difícil acreditar que está realmente a acontecer alguma coisa em qualquer lado. Terramotos no Japão, fomes na China, revoluções no México ? Não se preocupem, o leite estará à porta amanhã de manhã, o New Statesman sairá na sexta-feira. As cidades industriais ficavam muito longe, eram uma nódoa de fumo e miséria oculta pela curva da superfície da Terra. Ali, ainda continuava a ser a Inglaterra que conhecera na minha infância: os desvios do caminho de ferro invadidos por flores silvestres, os enormes prados onde grandes e reluzentes cavalos pastam e meditam, os córregos lentos ladeados por salgueiros, as copas verdes dos olmos, as esporas nos jardins das chalés – e depois o imenso e sossegado deserto da periferia de Londres, as barcaças do rio lodoso, as ruas conhecidas, os cartazes a anunciar jogos de críquete e casamentos reais, os homens de chapéu de coco, os pombos de Trafalgar Square, os autocarros encarnados, os políticas azuis – tudo mergulhado no profundo, profundo, sono inglês, do qual às vezes temo que nunca acordemos a não ser que a ele nos arranque o estrépito das bombas».
Homenagem à Catalunha, Lisboa, Edição «Livros do Horizonte», s.d., pp. 266-267

Sábado, Julho 23, 2005

Sebastianismo a alta velocidade

Se D. Sebastião regressar a Portugal, numa manhã de nevoeiro do século XXI, há-de ser em TGV. Já passaram mais de quatro séculos desde que o Rei virgem de 24 anos, antes de arremeter suicidariamente, contra as forças muçulmanas, disse para a História registar: «Morrer sim, mas devagar». Nos sessenta anos de domínio espanhol com que um Portugal de fracos recursos pagou o delírio imperial do jovem rei, o sebastianismo alimentou-se da esperança de regresso libertador do guerreiro desaparecido nas areias quentes de Alcácer-Quibir.
Esta ideia entre o messianismo político e uma agonia lenta fez escola em Portugal. Veja-se o caso de Salazar, o homem que quis salvar a Nação criando um regime que durou quarenta anos, resistir aos ventos destrutivos da Segunda Guerra Mundial, e, já depois de ter perdido a alma, numa situação internacional cada vez mais adversa, aguentou treze anos de guerra colonial.
As «novas fronteiras» deste tempo introduziram um novo estilo de fazer política repisando nos velhos temas sebastianistas. É que este Governo de um socialismo alegadamente novo mandou militares portugueses para o Afeganistão para defender a fronteira do império informal norte-americano contra a ameaça de radicais islâmicos. E recorre a um anti-espanholismo primário para justificar os empreendimentos da OTA e do TGV. O primeiro, deslocando o aeroporto de Lisboa para 40 quilómetros de distância, disputaria a Madrid o tráfego aéreo. O segundo ligaria a alta velocidade não só Lisboa ao Porto e Lisboa a Madrid, mas múltiplos pontos: Aveiro a Salamanca, Faro a Sevilha. Não interessa que o país disponha de poucos recursos e necessidades prementes em áreas como a educação, a saúde ou o ordenamento, vigilância e preservação de um território todos os anos devastado por incêndios. O dinheiro terá de ser gasto a defender o império no Afeganistão e a fazer inveja aos espanhóis. São essas as novas fronteiras que nos salvam.
Se os «conteúdos» da mitologia reinante são reciclados, o estilo é muito diferente: nada de agonias lentas. Os excluídos pela cruzada não ficarão a «ver navios», afastando-se devagar e poeticamente na direcção em que o sol se põe. Quando muito, observarão os aviões a levantar voo da OTA e comboios a circular a alta velocidade. Como disse uma personagem de um filme de Nicholas Ray, é preferível viver depressa e morrer jovem para dar um lindo cadáver.

Quinta-feira, Julho 21, 2005

O combate inteligente ao terrorismo

O Bruno Cardoso Reis escreveu mais uma «Carta de Londres», em jeito de epílogo. Faço minhas as suas palavras:
«O discurso hegemónico de George W. Bush, de quem quer impor democracias à força, mas deixa claro que depois quem manda no mundo são os EUA, é a melhor garantia que cada vez mais árabes, muçulmanos, enfim todos os que não tiveram a suprema sorte de nascer norte-americanos, se sentirão cidadãos de segunda na sociedade global.
Há que não ter ilusões sobre a natureza deste inimigo: a rede de radicais jihadistas despreza o Ocidente por ser diferente, e arrenega qualquer ideia de liberdade ou direitos humanos. Mas reduzir o combate ao terrorismo ou à guerrilha a um processo simplesmente policial e militar seria um erro.»

Quarta-feira, Julho 20, 2005

Metamorfoses da culpa

A culpa sofreu muitas metamorfoses desde que atormentou o jovem Raskolnikov, nas ruas de São Petersburgo, por ter assassinado uma velha usurária. Estávamos em 1866 e Dostoieveski entrelaçou a culpa, Raskolnikov e uma célebre máxima - «Se Deus não existe tudo é permitido» - no romance Crime e Castigo.
Hoje os fundamentalistas islâmicos matam o maior número possível em nome de Deus e acusam os ateus ocidentais de serem consumidores hedonistas. Se um radical islâmico escrevesse uma nova versão de Crime e Castigo o seu sentido seria muito diferente: a culpa estaria toda na velha judia e Raskolnikov seria um convertido matando em nome de Deus e da sua família oprimida.
A angústia nascida do desabamento de uma moral tradicional, caucionada pela Igreja e a emergência de um niilismo revolucionário é uma herança do século XIX. O cristianismo tem repensado a culpa como consciência do mal feito aos outros e capacidade de reparação. Assim a tratou Pedro Strecht em artigo em «O Público», de 15 de Julho passado. A ausência de consciência de culpa seria condição para as maiores violências em relação aos outros, nomeadamente de abuso sexual.
Mas esta culpa que se aproxima no seu significado da consciência permanece apanágio de uma minoria esclarecida. As religiões que tanto pano deram às longas mangas da culpa lidam agora com ela de maneira diferente. Ou minimizam a culpa face a uma sabedoria de vida religiosa que é uma via para a felicidade, mesmo neste mundo, ou carregam de culpa o infiel, desprezando-o face à pureza da fé.
Muita culpa passou clandestinamente da religião para a sociedade. Laicizou-se e modernizou-se. Em 18 passado, «O Público» noticiava na sua última página um fenómeno que tem afectado a Índia: o suicídio de adolescentes com sentimentos de culpa pelo insucesso escolar. O investimento feito pelas famílias nos seus filhos leva-os a sentirem-se na obrigação de atingir, no mínimo, 90 por cento de classificação. Quando não conseguem, o sentimento de fracasso leva-os ao suicídio. Um psiquiatra declara: «A partir dos dois anos, as crianças são sujeitas à competição e mais ou menos acarinhadas em função do seu desempenho escolar: se as notas são boas, eles são bons meninos, caso contrário são considerados como a vergonha da família».
È irónico que estas histórias de culpa exacerbada se passem no país que é uma espécie de miragem espiritual para o Ocidente. A Índia é a pátria de origem do budismo, uma religião sem Deus e sem culpa onde muitos ocidentais vêm a terapia para a culpa doentia inoculada pelo cristianismo. Infelizmente, a culpa do infiel face à pureza do crente e a culpa do insucesso são as mais favorecidas pelos ventos da globalização. É um sopro mortífero.

Segunda-feira, Julho 18, 2005

Correr contra a parede

A tarde caía, suave, escorregando por um céu azul claro. Eu caminhava de regresso a casa, ciente de que o passeio tem sido este mês a minha única oportunidade de exercício físico. Pensei na sorte em gozar um bom dia e uma boa aragem durante umas centenas de metros percorridos a pé. Ergui a cabeça e olhei em redor, num gesto inconsciente de apreciação. Vi então, desveladas por uma janela do prédio com um estor só parcialmente cerrado, as duas pernas a correr contra a parede. Eram duas pernas de homem, musculadas, correndo no mesmo sítio. O resto do corpo estava escondido da vista de outros e do sol. As pernas seguiam o ritmo do tapete rolante, numa precisão mecânica. O homem certamente escolhera a velocidade, neste caso rápida, e depois concentrara-se na tarefa de correr. Não podia pensar noutra coisa – qualquer distracção provocaria um sobressalto das pernas em relação à máquina. Precavera-se colocando o tapete rolante frente à parede e correndo o estor da janela.
Mas para chegar àquela situação o homem tivera de fazer um percurso. Primeiro de comprar o tapete rolante. Imagino-o a levantar-se num sábado de manhã para fazer a compra. Além disso, tivera de comprar os ténis, que não deviam ser uns quaisquer. Porque os calções eram daqueles finos e pretos colados às coxas, que os ciclistas também usam. Quem compra uns calções assim não escolhe uns ténis ao acaso. E o dinheiro para comprar o tapete rolante, os ténis e os calções não lhe caíra do céu. Aquele passo de corrida era próprio de um homem disciplinado e dedicado. O homem trabalhara muito, e bem, para poder comprar todos aqueles apetrechos que lhe permitiam correr contra a parede. Se não tivesse trabalhado tanto, se não tivesse perdido tempo a escolher o equipamento, teria de dar passeios a pé, num fim de tarde de Julho, sob um céu levemente azul e o corpo soprado por um vento fresco e brando.

Domingo, Julho 17, 2005


A banalidade do mal

Sábado, Julho 16, 2005

Eça intercede pelo Barnabé

«Outubro 1872
Deu-se ultimamente um facto singular: o soldado Barnabé mata o seu alferes com um tiro e é, pelo Conselho de Guerra, condenado a ser passado pelas armas. Imediatamente a imprensa apossa-se vorazmente deste facto e, durante um mês, trava-se entre sanguíneos e linfáticos esta discussão: deve o soldado Barnabé ser fuzilado ? Deve o soldado Barnabé conservar-se vivo ? E, no entanto, na sua prisão, o soldado Barnabé espera que os senhores jornalistas e curiosos decidam – se ele pode continuar a aquecer-se ao sol, ou deve ser encostado a um poste e atravessado por balas.
Podia supor-se ainda que o soldado Barnabé, na reclusão mortuária da sua casamata, não conheceria esta discussão, que é para ele alternadamente – bandeira de misericórdia e dobre de finados. Mas qual ! O soldado Barnabé conhece os jornais. O soldado Barnabé lê os jornais e, o que é pior, tendo um correspondente improvisado sobre ele uma anedota excessiva, o soldado Barnabé escreveu para os jornais. O soldado Barnabé rectificou. De modo que devemos crer que ele todas as manhãs abre a gazeta e vai procurar no artigo de fundo, soletrando a prosa florida – a probabilidade de viver ou a probabilidade de morrer !
Ora os que pedem a comutação da pena, compreendem-se, têm por si a beleza do sentimento: é a piedade, o respeito pela vida, o ódio das penas irreparáveis – que vivem e suplicam na sua prosa. São simpáticos, são sensíveis.
Mas os senhores sanguinários que pedem a morte, em que se fundam ?
Na disciplina militar.
E é a primeira vez em Portugal que a disciplina se estreia como razão. Nunca fora invocado este personagem: desde a deserção do soldado até à insurreição do general – tudo se tem passado tranquilamente, sem que a disciplina se adiante a reclamar os seus direitos. Estava há tanto tempo calada, tácita, inactiva, indiferente, desinteressada, que todos supunham que ela pedira a sua reforma e gemia, nos subúrbios, um reumatismo antigo. Mas trata-se de uma vida – e vemos de repente, surpreendidos, a disciplina aparecer entre as colunas dos jornais e pedir essa vida em seu nome e para sua garantia. Sem o que a disciplina não responde por si. Ou lhe dão o soldado Barnabé crivado de balas, ou a disciplina se rebaixa inteiramente, e publicamente, nas ruas, se desabotoa.
Esta aparição da disciplina, que nunca ninguém vira, é tão singular que o movimento instintivo é olhar para ela. E que desilusão! Vindo pedir sangue – podia supor-se que ela vinha forte, musculosa, asseada, correcta, intacta, pudica e grave. Qual ! Vem trôpega, caturra, esfarrapada, ensebada, esmouçada, babando-se e pedindo sangue para se reconfortar, como um mendigo escavacado pede um caldo. Um copo de sangue para a disciplina ! E todo o mundo se admira que ela não prefira meio de Lavradio !
Entendamo-nos com disciplina. Ela tem em nós dois respeitadores imutáveis. Ela é a honra activa do exército, a sua consciência, a sua dignidade. Para ela se manter intacta e perfeita, se forem necessários cadáveres, encostem-se homens ao muro e forme-se o piquete de execução; nós não temos o respeito sentimental e lírico da vida humana, ou antes, temos o respeito excessivo da vida pública e social, para hesitarmos em lhe sacrificar Barnabé ou João. Mas o que é necessário é que disciplina militar, que vem pedir essa vida para garantia da sua conservação, seja verdadeiramente e legitimamente a disciplina militar: isto é – a disciplina perfeita, sem nódoa, virgem de deserções e de revoltas, sem defecções e sem traições, tendo a religião da lei até à superstição, a obediência do dever até à minuciosidade, rigorosa, exemplar, intacta, rígida e prussiana. Se esta disciplina, para se conservar assim, pede sangue, atirem-se-lhe baldes de sangue.
Mas se é uma disciplina exautorada e desmoralizada, desfigurada e poluída por todas as revoltas e todas as desobediências, que nos vem pedir, para se desafrontar, a execução de um homem – encolham-se os ombros. (...)
És tu que fazes os Barnabés. Quando um exército se sente desorganizar-se sem reagir, alimenta a desobediência; e como perde o brio militar, o espírito de camaradagem, a atenção pelos inferiores e o respeito pelos superiores – termina-se pelo tiro; à anarquia da disciplina segue-se a tirania da brutalidade. Um general que leva os seus soldados à revolta termina na última escala pelo soldado que dá tiros nos seus oficiais. È a quem tem melhor pontaria.
(...)
E diz-se que sem este exemplo o exército em Portugal não pode ter seriedade. Escreve-se isto. Não é mau. De modo que temos o exército sem espírito militar, sem instrução, sem manobras, sem hábitos de marcha e de acampamento, sem vigor físico, sem fé patriótica, os arsenais sem armas, a artilharia sem peças, os quartéis sem condições, as escriturações sem regularidade, os quadros sem gente, os estados-maiores sem talento, os coronéis sem fidelidade, os soldados sem disciplina – e qual é o remédio para tudo isto ? Matar o soldado Barnabé !
Nós bem sabemos que são os novos oficiais saídos das escolas e cheios de um espírito vivo – que querem este exemplo, para impedir o fim de tudo (...)
Ora se eles são enérgicos e sentem em si a força das criações proveitosas devem estar concertando a casa, vidro por vidro, e sustentando a disciplina caduca, cadáver por cadáver ? Não. Arrasem a casa e façam-na de novo. Depois se algum soldado resmungar, então sim: encostem-no ao muro e crivem-no de balas.
Até lá, sejamos mais benévolos – e não seja o pobre Barnabé que vá estrear o novo sistema de armas !»
Uma Campanha Alegre, Lisboa, Círculo de Leitores, 1980, pp. 373-376

Sexta-feira, Julho 15, 2005

O morto usa colete

Em dia com falta de assunto e de deambulação por blogues em busca do dito, deparo com esta questão tremenda da Ana Cláudia Vicente: «O colete reflector abraçado ao(s) banco(s) da frente é um upgrade da figa a balançar no espelho retrovisor ?» A coisa não me apoquentava, mas, depois de pensar um pouco sobre ela, revelou-se inquietante. É que o colete reflector que a nova lei em prol da segurança na estrada impõe aos condutores geralmente fica enfiado no banco do «lugar do morto». Esta expressão sinistra é que me apoquenta. Quem é esse morto invisível que viaja ao lado do condutor ? Essa personagem que desde a minha infância sempre foi um mistério agora ganhou um atributo – o colete. A seca invernal e primaveril seguidas do sol estival têm evitado mais adereços. Mas quando, para o fim do ano, o inverno chegar, o morto, além do colete, é capaz de ganhar um chapéu de chuva. Ou até um cachecol, que o condutor usa no exterior mas dispensa no interior do carro, aquecido pelo ar condicionado. Como a utilização de telemóveis também está a ser punida, é possível que se torne hábito dotar o morto também com um destes aparelhos. Assim, será possível ver um condutor português a falar para o morto do lado, invisível excepto no seu colete, cachecol e chapéu de chuva. Há malta muito sozinha.

Quinta-feira, Julho 14, 2005

Dois minutos de silêncio contra o terror

Quarta-feira, Julho 13, 2005

O Paraíso Triste

É o título de um livro sobre Lisboa nos anos quarenta. Terá sido a impressão de Saint-Exupéry acerca de Portugal, que visitou durante a Segunda Guerra Mundial. Fechado o ciclo do império e da ditadura, integrados na União Europeia, voltamos a ser um paraíso triste. O mundo parece assolado pelos cavaleiros do Apocalipse: fome, peste e guerra. Os três monstros flagelam o terceiro mundo, com especial incidência em África. Mas neste mundo em que as fronteiras implodiram o terror floresce nas cidades mais sofisticadas: Nova Iorque, Madrid, Londres.
Nós continuamos poupados a devastações e no entanto consideramo-nos amaldiçoados por viver numa espécie de limbo. Moídos por mil e uma apoquentações: a subida dos impostos, a administração pública, a previsão do Banco de Portugal de um crescimento de apenas 0,5 por cento para o próximo ano, a eventualidade da recessão. Ontem fiquei a saber que em Portugal o número de telemóveis ultrapassou o dos portugueses: são 10, 6 milhões – os telemóveis. Receio bem que muitas horas de chamadas sejam gastas em queixas privadas, lamentos, desabafos melancólicos.

Terça-feira, Julho 12, 2005

Diferenças

À medida que se aproxima a data da subida ao Quilimanjaro, vão-se tornando patentes as minhas diferenças em relação ao alpinista João Garcia. Uma das diferenças é que eu preparo-me fisicamente dando passeios na Quinta das Conchas.

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Reformas políticas

As reformas políticas anunciadas por Sócrates incidem na limitação dos mandatos do poder autárquico. Outra questão discutida tem sido a reforma do sistema eleitoral, substituindo as actuais listas nacionais por listas mistas, compostas por um círculo nacional e círculos uninominais.
Ainda não ouvi ninguém a discutir a introdução em Portugal do mecanismo institucional que os norte-americanos designam por «impeachment». Geralmente, traduz-se por impugnação. A ideia é que a democracia não consiste apenas no poder do político mais votado, mas também no respeito das minorias e de valores como a liberdade e a dignidade humana. Estes valores devem ser defendidos, se necessário, contra a vontade da maioria. Um político eleito democraticamente não tem legitimidade para descriminar minorias. Um Estado democrático tem legitimidade para expulsar do jogo político um dirigente que desvirtua os valores democráticos. Alberto João Jardim é o exemplo de um político que devia ser impugnado.

Domingo, Julho 10, 2005

Apocalipse dos Mundos

«A Guerra dos Mundos» é uma visão poético-profética de um judeu norte-americano que é um grande realizador. O filme surge catalogado como de ficção científica e é nesse género que ele se situa indo beber quer a fontes literárias (o romance de H.G. Wells), quer a fontes radiofónicas (o programa de Orson Welles evocado pela voz off que abre e fecha a narrativa), quer a fontes cinéfilas. Nestas últimas são de referências obrigatória os filmes do próprio Spielberg: «Encontros Imediatos de Terceiro Grau», «ET», «Inteligência Artificial», «Relatório Minoritário». Mas não se podem excluir a referência ao primeiro «Alien», de Ridley Scott, e a «The Thing» (entre outros filmes) de John Carpenter.
Mas o género de Ficção Científica é muito fluído, facilmente se entrecruzando com outros géneros como o do terror, de que «Alien» e «The Thing» são bons exemplos. É nesta encruzilhada que se encontra «Guerra dos Mundos», tão próximo de títulos de FC como do muito famoso filme de Spielberg «O Tubarão». Podíamos ainda acrescentar um terceiro género: o filme-catástrofe.
Esta acumulação de géneros e referências de pouco nos dirá acerca do filme se ignorarmos óbvio: Steven Spielberg é um autor, que sempre se serviu do cinema para projectar no ecrã os sonhos e pesadelos dos norte-americanos a partir de duas tradições simbólicas fortíssimas: a judaica e a de Hollywood. «Os Salteadores da Arca Perdida» é um exemplo da confluência dos dois imaginários. A cena em que os feixes luminosos saindo da arca da aliança exterminam todas as testemunhas de olhos abertos lembra-nos outras cenas: precisamente aquelas de «A Guerra dos Mundos» em que os raios dos Tripods reduzem a pó os seres humanos por eles atingidos. Toda a gente sabe mais ou menos de cor o passo do Génesis em que Deus diz ao Homem: «Tu és pó e ao pó hás-de tornar». É no Antigo Testamento que se encontra a mais impressionante narrativa de uma catástrofe: o Dilúvio. Menos conhecida é a narrativa da destruição de Sodoma e Gomorra: «Então o SENHOR fez cair do céu, sobre Sodoma e Gomorra, uma chuva de enxofre e de fogo, enviada pelo SENHOR. Destruiu estas cidades, todo o vale e todos os habitantes das cidades e até a vegetação da terra. A mulher de Lot olhou para trás e ficou transformada numa estátua de sal» (Gen. 19, 24-26).
Não há sal nem mulher petrificada no filme – apenas Ogilvy, a personagem perturbada interpretada por Tim Robbins que se recusa a fugir. Tendo perdido os seus familiares, remói as suas dores numa cave, numa espiral auto-destrutiva que põe em perigo as personagens em fuga de Tom Cruise e da pequena filha. Quem não se purifica no sofrimento e procura a redenção partindo para uma terra prometida está condenado. Eis a moral que judeus e norte-americanos contam da sua história e Spielberg volta a contar neste filme. É certo que os Estados Unidos já não são um país «de fronteira». Neste caso a terra prometida é Boston, uma cidade no coração da História da Independência dos Estados Unidos, símbolo dos seus valores originários. Morrem os extra-terrestres e reconcilia-se a família. Louvado seja Deus.

Sábado, Julho 09, 2005

A «Guerra dos Mundos» não poupa Lisboa

Sexta-feira, Julho 08, 2005

Choque e pavor

O proverbial sangue-frio britânico conjugado com a sobriedade informativa são mais do que recomendáveis em caso de atentados terroristas. O «zapping» entre a CNN e a «Skynews» mostra as vantagens de informar com a razão e não com o coração na boca em situações desta natureza.
Mas para vencer o terrorismo não basta estilo, razões e convicções. É preciso uma boa estratégia. A estratégia seguida tem de sido a de Bush. Nunca concordei com ela. Três anos depois da invasão do Afeganistão já não se trata de discordar: pode-se e deve-se fazer balanços.
Objectivos proclamados na invasão do Afeganistão: capturar Bin Laden decapitando a Al-Qaeda, erradicar do país os bárbaros Taliban, libertar as mulheres oprimidas. Resultados: de Bin Laden continuamos sem notícias, a Al-Qaeda continua activa, os Taliban voltaram e cercaram Cabul que irá agora ser defendido por portugueses, as mulheres afegãs continuam a usar Burqa.
Objectivos proclamados na invasão do Iraque: destruir as armas de destruição maciça de Saddam Hussein, democratizar o Iraque que seria a primeira peça de um dominó democrático varrendo o Médio Oriente. Resultados: as armas de destruição maciça nunca foram encontradas. O Iraque encontra-se a ferro e fogo. O Afeganistão continua a ferro e fogo. O Irão virou democraticamente à extrema-direita. Outros países, como a Arábia Saudita, fizeram algumas operações de cosmética democráticas mas continuam a ser estruturalmente autoritários.
O conceito de «choque e pavor» parece ser muito mais fácil de globalizar do que o de «democracia». Infelizmente.

Quinta-feira, Julho 07, 2005

O pior

Ontem, ao pensar no post de hoje, relaxei: punha uma imagem de «A Guerra dos Mundos» de Spielberg com legenda. A não ser que algum acontecimento extraordinário me pedisse um texto. O acontecimento deu-se em Londres e é tentador estabelecer a conexão com o filme-catástrofe. O próprio realizador o fez. Acontece que os terroristas não são extra-terrestres. Por muito repugnante que seja – e é – admiti-lo, pertencem à nossa espécie. Vivem na mesma terra, aquecidos pelo mesmo sol e protegidos pela mesma sombra. Alguns são muçulmanos, como parte das vítimas. Não representam outro mundo, outra religião. Representam o pior da humanidade.

Quarta-feira, Julho 06, 2005

Vantagens de ir ao médico

Quando a febre leva o mercúrio a assinalar 38,9 graus no termómetro convém ir ao médico ver o que se passa. Foi o que fiz domingo passado. Uma passagem pela banca deixou-me um vínculo ao Sams, serviço que a minha saúde ainda não me tornara necessário. No hospital, a menina que me atendeu no serviço de urgência, embaraçada, afirmou que o meu cartão tinha sido suspenso devido ao não pagamento de uma dívida. No dia seguinte de manhã esclareci a questão: eu já pagara a dívida em Janeiro passado, embora a informação ainda não tivesse percorrido os circuitos devidos no sistema informático. Fui atendido por um médico simpático que me explicou que eu tinha apanhado um vírus e a febre já devia estar a passar, pois casos desses costumam durar três dias. Receitou-me um anti-inflamatório: Ananase. Não soube responder-lhe se era ou não alérgico ao medicamento, pois nunca o tinha tomado. Na farmácia, disse o nome e venderam-me logo uma caixa de 60 comprimidos. Só depois da compra feita é que disseram que também havia caixas de 20.
Sentia um verdadeiro alívio. Depois da febre e da dúvida, o diagnóstico e o medicamento. Comecei a tomá-lo. A febre voltou a aparecer. Manchas vermelhas apareceram-me na cara, no pescoço e no tronco. Lendo com a atenção a posologia, verifiquei que era possível haver reacções alérgicas ao medicamento. Eu, pelos vistos, era uma possibilidade real. Parei de tomar os comprimidos. O saldo desta história é positivo. Agora estou fino. E tenho 52 comprimidos de revestimento vermelho reluzente. Para alguma coisa hão-de servir. Se engolir dois ou três na noite de Halloween até prego medo ao susto.

A educação além do défice

Não vi a entrevista José Sócrates. Ouvi excertos e comentários na TSF. Acredito na justeza do comentário de António José Teixeira de que a entrevista foi boa mas dar boas entrevistas não basta. Acerca de um aspecto relevante não ouvi excertos ou comentários: a educação. Tem-se levantado um moinho de críticas em relação aos vícios dos professores instalados. Mas como é que o Governo encara a formação dos novos professores ? O David Soares concluiu este ano a formação pedagógica pensando para o ano fazer um estágio remunerado. No decurso dos estudos pedagógicos, foi informado de que o Governo tencionava acabar com os estágios remunerados. David Soares escreve sobre a «formação inicial de docentes» aqui.

Virulências

Depois de anos de boa saúde e cautela em relação aos vírus informáticos, recordei-me da pior maneira do que é um vírus propriamente dito. Daqueles que fazem o mercúrio esticar-se no termómetro. Que aparentemente desaparecem depois de tomar remédios mas voltam à carga quando menos se espera. Há males que vêm por bem ? Este veio, pelo menos, por um post.

Terça-feira, Julho 05, 2005

O inimputável

O Presidente Regional da Madeira e membro permanente do Conselho de Estado, Alberto João Jardim afirmou que não queria chineses ou indianos na Madeira. A discreta comunidade indiana não se pronunciou e o Presidente da Liga dos Chineses em Portugal foi pouco contudente nas suas críticas. As representações diplomáticas indiana e chinesa permanecem em silêncio. Parece que não passou pela cabeça de ninguém que podiam reagir de forma desagradável dada a presença histórica de Portugal em território indiano e a transição recente de Macau para a soberania chinesa. Como é que reagiríamos se as autoridades chinesas dissessem que não queriam portugueses em Macau ou as indianas que não queriam portugueses na Índia ?
Em reacção, o Presidente da República fez umas declarações abstractas contra a xenofobia. Membros do PSD demarcaram-se. A intervenção do deputado do CDS/PP, dizendo que não subscrevia mas compreendia as declarações de Alberto João Jardim face ao problema da importação de produtos chineses é lamentável. É preciso lembrar que Jardim não defendeu uma estratégia económica – limitou-se a fazer declarações racistas. Os outros partidos criticaram o líder da Madeira, com destaque para o BE. O alto-comissário para a Imigração e Minorias Étnicas repudiou e ameaçou com sanções.
Jardim não é apenas uma ameaça para chineses e indianos mas também para a nossa democracia - esta não é apenas a vontade da maioria expressa em votos. É também um conjunto de valores garantidos por um Estado de Direito. O afastamento de um Governante do poder não devia apenas depender da perda de eleições mas da violação comprovada desses valores. Há uma palavra para este mecanismo: impugnação.
Mas Alberto João Jardim tem sido um inimputável da nossa democracia. Esperemos que, desta vez, as suas palavras tenham consequências maiores do que, daqui a algum tempo, ao entrarmos num restaurante chinês, depararmos com novos pratos. Por exemplo, «Porco doce da Madeira com molho de soja».

Segunda-feira, Julho 04, 2005

Sonho

Eu tive um sonho. O dia chegará em que entrarei num restaurante chinês e pedirei um «pato à Porto Santo com rebentos de bambu».

Sexta-feira, Julho 01, 2005


Inês de Castro: o mito esculpido no túmulo da personagem histórica

Inês Rainha dos poetas

Este ano comemoram-se os 650 passados desde a morte de Inês de Castro mandada assassinar pelo Rei D. Afonso IV, pai do seu amante, D. Pedro. Por causa desta morte, o filho moveu uma guerra ao pai e arrancou com as suas próprias mãos o coração a dois dos três assassinos da bela Inês. Depois de coroado, ordenou que o cadáver da amante fosse desenterrado e os nobres de Portugal lhe prestassem homenagem beijando a mão morta. Os versões que Camões lhe dedicou em «Os Lusíadas» estão entre os muitos e melhores textos que os escritores portugueses lhe dedicaram:

«Passada esta tão próspera vitória,
Tornada Afonso à lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória,
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e digno de memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de morta foi rainha.

Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano
Tuas aras banhar em sangue humano.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo o doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito;
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

(...)

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co´o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor mauro, fosse alevantada
Contra ua dama delicada ?

(...)

Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabrastro, que sustinha
As obras que despois a fez rainha,
As espadas banhando e as brancas flores
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, fervidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar naquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes!»