E o esplendor dos mapas

"E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta" - Álvaro de Campos eoesplendor@hotmail.com

Nome: João Miguel Almeida
Localização: Lisboa, Portugal

Sábado, Dezembro 24, 2005

Volto com os Reis

Este é o meu penúltimo post neste bloque. O último será um link para o blogue colectivo em que vou escrever. Data de partida prevista: 6 de Janeiro, dia dos Reis. Até lá, felizes navegações e boas festas.

A viagem interior


m Em cima: a chegada a Dar Es Salaam, no início da nossa viagem pela Tanzânia. Em Baixo: o nosso regresso a Londres.

O mar como fonte de vida

Aspecto pouco visto do porto da Cidade de Pedras. A par do Zanzibar poético, o Zanzibar da incessante luta pela vida.

Monte Sião

«Mount Zion», o complexo turístico em que ficámos remete para o imaginário bíblico. É uma aproximação numa praia do índico dos estereótipos do paraíso. Outros lembrar-se-ão das teorias que situavam a «Ilha dos Amores» do Canto IX dos «Lusíadas», de Camões, em Zanzibar.

Um porto no Índico

O porto da cidade das pedras reflecte tanto o legado de um passado rico como um presente dinâmico.

A cidade das pedras

«Stone Town», a capital de Zanzibar, é a cidade das pedras, das ruas estreitas e labirínticas, das lajes que a chuva torna luzidias.

De avião para Zanzibar

Depois da viagem pela Tanzânia continental, apanhámos o avião da «Tanzanian Airlines» para Zanzibar. Experimentámos o ferry boat para regressar e não há dúvidas: esta é a melhor maneira de se fazer transportar até à ilha. O voo é barato e confortável. Atrasou-se, é certo, mas, para consolar os passageiros, a companhia da Tanzânia ofereceu-lhes uma bebida não alcoólica. A TAP também se atrasa e não oferece nada.
PS
Bom Natal
Merry Christmas

No interior da cratera

O Ngorongou é uma enorme cratera aberta por um vulcão. As paredes da cratera erguem-se como montanhas. Após o fogo, terra, água, nuvens, vida e a beleza que só os humanos sentem.

Pôr do sol

A noite desce, em tons lilazes, sobre o Ngorongoro.

Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

Quando fui humano

Podem não acreditar, mas já fui humano. Um daqueles seres que rompem pelo planalto em jipes ruidosos. Páram quando avistam um animal de grande porte e entusiasmam-se quando descobrem uma chita, um leão deitado em cima de um rochedo ou um leopardo escondido sob a copa de uma acácia.
Hoje à tarde as memórias da minha outra vida refrescaram-se. Lembrei dias amenos em Lisboa, a cerveja do Bairro Alto, o desconforto do metro nas horas de ponta, a atmosfera asséptica da Torre do Tombo e os minutos de sol na varanda da Biblioteca Nacional. E também os os cinemas, os encontros no Saldanha Residence e o tempo passado nas praias do Atlântico.
Por quê todas estas lembranças despropositadas ? Não me admirava se a ingestão do louco fotógrafo tivesse a sua influência. Era um estrangeiro. Não tenho a menor dúvida. Talvez, como tantos outros, tomasse a sua dose semanal de Mephaquine desde há longos meses. É possível que os efeitos secundários sentidos por humanos que o tomam frequentemente como prevenção contra a malária - sonhos intensos, delírios, alucinações - me afectem neste preciso momento.
O homem não podia estar no seu juízo perfeito ao tentar fotografar-me exactamente quando me preparava para caçar um impala. A presa escapou, mas não o fotógrafo. A carne adocicada dos humanos não é a minha preferida. Mas, de vez em quando, por que não ?
Pergunto-me qual será a próxima reencarnação da alma do fotógrafo. Duvido que a presa de um leopardo anime o corpo de um outro leopardo. No entanto, admito: quem arriscou a sua vida na savana pode muito bem cá voltar. Será um desses lagartos de rabo comprido e cabeça vermelha, passando a maior parte do dia agarrados a uma rocha batida pelo sol.

Kopjes

Kopjes é uma região pouco visitada do Serengueti. O fotógrafo que nos acompanhava convenceu-nos a percorrê-la na esperança de vermos chitas. Aquelas rochas emergindo da vegetação rala encontram-se ali há milhões de anos. Estavam lá quando Lucy deu os primeiros passos.

Macado em meditação

Lei da savana

A Lei da Selva tem muito má fama nas civilizações humanas, mas a lei da savana, neste caso do Serengueti, inclui preceitos de colaboração carinhosa.

Terça-feira, Dezembro 20, 2005

Silhuetas africanas

No dia seguinte, partimos noutro jipe para ver outras paisagens da Tanzânia. As silhuetas das girafas recortando-se, elegantes, no horizonte, são um ícone de África.

Uma tarde em Moshi

No quinto dia, voltamos a Moshi. As neves do Quilimanjaro contrastam de novo com a exuberante vegetação africana.

Regresso

Saio da cabana. O jipe espera-nos do planalto Shira. É por ele que saímos do Parque Nacional do Quilimanjaro, correndo a mais de cem à hora por trilhos de terra batida. Apesar dos violentos solavancos, adormeço.

Exausto

A fotografia apanha-me a dormir sentado, na cabana metálida do acampamento «New Shira». Depois de perceber que tinha dificuldade em apertar os atacadores, passei cerca de nove horas a descer a montanha.

O último acampamento

O acampamento «Arrow Glacier», a 4800 ou 4900 metros de altitude, garante rocha, nevoeiro e um vento que entra na carne como gumes e desfez a minha tenda. Ainda assim, foi a noite em que dormi melhor. Reunimo-nos numa só tenda para resistir melhor ao frio antes da escalada final. Deitámo-nos por volta das nove da manhã e acordámos à uma. A Ana decidiu voltar para trás. Eu, o Armando, o guia e um assistente, prosseguimos. Não tinha dores de cabeça, mas o corpo pesava-me. Subimos por uma rampa de pedras e sentei-me para apertar os atacadores. Não me conseguia levantar. O guia aconselhou-me a voltar para trás. Eram três da manhã e discutia com ele, argumentando que não tinha dores de cabeça e queria subir. «Se continuares podes prejudicar gravemente a tua saúde». Perante esta frase, decidi voltar. Pensei em tudo o que me esperava cá em baixo. Não foi desta que subi ao tecto de África.

Aridez

O caminho para o acampamento «Arrow Glacier» é árido e árduo.

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

Lava Tower

Para trás fica «Lava Tower», a 4600 metros de altitude, com o seu acampamento que só com muita atenção se consegue descortinar nesta imagem. Aí sofremos a primeira baixa: Lukeria, a quem a altitude causara violentas dores de cabeça e náuseas que os analgésicos não conseguiam iludir, voltou para trás. Uma curta paragem permitiu a despedida emocionada. Tínhamos de chegar ao acampamento «Arrow Glacier» antes que a noite chegasse.

Ana

Com a rocha «Lava Tower» ao fundo, Ana sorrina para a câmara. É uma professora do Porto, com formação em Físico-Químicas e curriculum na investigação. A sua aparência frágil é enganadora. Aguentou até ao último acampamento, mostrando sempre atenção e cuidado pelo estado dos outros.

Travessia árdua

À medida que subimos, a expressão «deserto alpino» faz cada vez mais sentido.

Cogumelo vulcânico

A lava fez-se pedra, o vento deu-lhe forma, os homens colocam-lhe nomes, transformam coisas estranhas num mundo familiar.

Quarta-feira, Dezembro 14, 2005

Paisagem de pedras

A turfeira vai cedendo lugar à terceira paisagem do Quilimanjaro: o deserto alpino. O ar torna-se mais rarefeito e frio. Este é um caminho estreito e austero.

Mudança de rumo

No quarto dia, partimos do acampamento «New Shira». Decidimos sair da rota Machame e tentar alcançar o topo de do Quilimanjaro por «Western Breach». A opção permitir-nos-ia, durante a subida, passar pela formação rochosa «Lava Tower» e, depois do acampamento «Arr ow Glacier», ver o vulcão da montanha ainda em actividade.

Terça-feira, Dezembro 13, 2005

Brincadeira

Frederick, o guia, e White, um assistente, brincam às operações de salvamento na área do planato Shira onde se dá a evacuação, por jipe, dos montanhistas afectados pela «doença da altitude».

O planalto Shira

No terceiro dia no Quilimanjaro, saímos do acampamento New Shira, passámos pelo antigo acampamento Shira e passeámos no planalto. Objectivo: exercitar o corpo a uma altitude um pouco mais elevada do sítio onde dormimos.

Acampamento com vista

Acima dos três mil metros, alguns montanhistas começam a sentir sintomas mais leves ou mais pesados da doença de altitude - dores de cabeça e náuseas. A dúvida instala-se: vou subir até ao cume ? O pico Uhuru permanece uma imagem de serenidade - e no entanto os fenómenos naturais parecem projectar nele os sentimentos dos montanhistas: tão depressa surge sólido, seguro, à luz do sol, como se volatiliza atrás de uma nuvem.

Domingo, Dezembro 11, 2005

Anoitece no Quilimanjaro

O tecto de África é um cenário digno do crepúsculo dos deuses.

Alta atitude

O acampamento New Shira

Passámos duas noites no acampamento New Shira, situado a 3800 metros de altura. Serviu-nos de base para ensaiarmos a adaptação à altitude seguindo o príncipio «subir alto, dormir baixo».

Armando Castro

A primeira viagem que fiz com o Armando foi de Inter-Rail, até Itália. Tinha-o conhecido em Lisboa, onde eu acabava o 12.º e ele um curso de engenharia. Nascera em Moçambique e cresceu em Guimarães. Depois de obter o canudo rumou a Braga, onde tentou organizar uma vida. Mas Portugal parecia-lhe cada ver mais pequeno. Um dia emigrou para a Austrália. Tirou uma bacharelato de enfermagem que lhe serviu para trabalhar com os aborígenes australianos, em Timor-Leste e na Arábia Saudita (durante dois anos). Actualmente exerce a sua profissão num hospital de Londres. Quando me convidou, no início do ano corrente, para subir o Quilimanjaro, juntamente com Ana, a namorada do Porto, e Lukeria, uma australiana de origem sino-russa, aceitei. Com entusiasmo.

Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

Escrever

Aproveito uma pausa, destinada a descansar e a comer, para tomar notas no meu caderninho Moleskine. Ao comprá-lo, em Lisboa, pensei tratar-se apenas de um fétiche de candidatos a escritores, esquecidos de que uma das razões que levou van Gogh ou Hemingway, no início da sua carreira, a comprar cadernos destes é que deviam ser muito baratos. Aliás, era o baixo custo de vida em Paris, no início do século XX, que atraía muitos norte-americanos. Mas no Quilimanjaro descobri o lado prático destes cadernos: facilmente se guardam num bolso das calças ou do casaco; podem recolher muitas notas se escritas a lápis e em letra miudinha; as capas duras e o elástico protegem as folhas. Escrever neles é mesmo escrever um livro. Um livro manuscrito, único, de capa dura, adequado para registar observações súbitas e para resistir ao tempo.

Domingo, Dezembro 04, 2005

Companheiros de escalada

Estes pássaros negros, abutres ou aparentados, acompanhavam de perto a nossa subida. Na esperança...de apanhar restos de comida, como é óbvio.

Sábado, Dezembro 03, 2005

Lobelia

A lobelia é uma planta que assume formas únicas no Quilimanjaro e leva oito anos a florir.

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

Sorrisos no ar cristalino

Entre as Nuvens (II)