E o esplendor dos mapas
"E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta" - Álvaro de Campos eoesplendor@hotmail.com
Sábado, Dezembro 24, 2005
De avião para Zanzibar
Depois da viagem pela Tanzânia continental, apanhámos o avião da «Tanzanian Airlines» para Zanzibar. Experimentámos o ferry boat para regressar e não há dúvidas: esta é a melhor maneira de se fazer transportar até à ilha. O voo é barato e confortável. Atrasou-se, é certo, mas, para consolar os passageiros, a companhia da Tanzânia ofereceu-lhes uma bebida não alcoólica. A TAP também se atrasa e não oferece nada. PS
Bom Natal
Merry Christmas
Quinta-feira, Dezembro 22, 2005
Quando fui humano
Podem não acreditar, mas já fui humano. Um daqueles seres que rompem pelo planalto em jipes ruidosos. Páram quando avistam um animal de grande porte e entusiasmam-se quando descobrem uma chita, um leão deitado em cima de um rochedo ou um leopardo escondido sob a copa de uma acácia. Hoje à tarde as memórias da minha outra vida refrescaram-se. Lembrei dias amenos em Lisboa, a cerveja do Bairro Alto, o desconforto do metro nas horas de ponta, a atmosfera asséptica da Torre do Tombo e os minutos de sol na varanda da Biblioteca Nacional. E também os os cinemas, os encontros no Saldanha Residence e o tempo passado nas praias do Atlântico.
Por quê todas estas lembranças despropositadas ? Não me admirava se a ingestão do louco fotógrafo tivesse a sua influência. Era um estrangeiro. Não tenho a menor dúvida. Talvez, como tantos outros, tomasse a sua dose semanal de Mephaquine desde há longos meses. É possível que os efeitos secundários sentidos por humanos que o tomam frequentemente como prevenção contra a malária - sonhos intensos, delírios, alucinações - me afectem neste preciso momento.
O homem não podia estar no seu juízo perfeito ao tentar fotografar-me exactamente quando me preparava para caçar um impala. A presa escapou, mas não o fotógrafo. A carne adocicada dos humanos não é a minha preferida. Mas, de vez em quando, por que não ?
Pergunto-me qual será a próxima reencarnação da alma do fotógrafo. Duvido que a presa de um leopardo anime o corpo de um outro leopardo. No entanto, admito: quem arriscou a sua vida na savana pode muito bem cá voltar. Será um desses lagartos de rabo comprido e cabeça vermelha, passando a maior parte do dia agarrados a uma rocha batida pelo sol.
Terça-feira, Dezembro 20, 2005
O último acampamento
O acampamento «Arrow Glacier», a 4800 ou 4900 metros de altitude, garante rocha, nevoeiro e um vento que entra na carne como gumes e desfez a minha tenda. Ainda assim, foi a noite em que dormi melhor. Reunimo-nos numa só tenda para resistir melhor ao frio antes da escalada final. Deitámo-nos por volta das nove da manhã e acordámos à uma. A Ana decidiu voltar para trás. Eu, o Armando, o guia e um assistente, prosseguimos. Não tinha dores de cabeça, mas o corpo pesava-me. Subimos por uma rampa de pedras e sentei-me para apertar os atacadores. Não me conseguia levantar. O guia aconselhou-me a voltar para trás. Eram três da manhã e discutia com ele, argumentando que não tinha dores de cabeça e queria subir. «Se continuares podes prejudicar gravemente a tua saúde». Perante esta frase, decidi voltar. Pensei em tudo o que me esperava cá em baixo. Não foi desta que subi ao tecto de África.Sexta-feira, Dezembro 16, 2005
Lava Tower
Para trás fica «Lava Tower», a 4600 metros de altitude, com o seu acampamento que só com muita atenção se consegue descortinar nesta imagem. Aí sofremos a primeira baixa: Lukeria, a quem a altitude causara violentas dores de cabeça e náuseas que os analgésicos não conseguiam iludir, voltou para trás. Uma curta paragem permitiu a despedida emocionada. Tínhamos de chegar ao acampamento «Arrow Glacier» antes que a noite chegasse.Quarta-feira, Dezembro 14, 2005
Mudança de rumo
No quarto dia, partimos do acampamento «New Shira». Decidimos sair da rota Machame e tentar alcançar o topo de do Quilimanjaro por «Western Breach». A opção permitir-nos-ia, durante a subida, passar pela formação rochosa «Lava Tower» e, depois do acampamento «Arr ow Glacier», ver o vulcão da montanha ainda em actividade.Terça-feira, Dezembro 13, 2005
Acampamento com vista
Acima dos três mil metros, alguns montanhistas começam a sentir sintomas mais leves ou mais pesados da doença de altitude - dores de cabeça e náuseas. A dúvida instala-se: vou subir até ao cume ? O pico Uhuru permanece uma imagem de serenidade - e no entanto os fenómenos naturais parecem projectar nele os sentimentos dos montanhistas: tão depressa surge sólido, seguro, à luz do sol, como se volatiliza atrás de uma nuvem.Domingo, Dezembro 11, 2005
Armando Castro
A primeira viagem que fiz com o Armando foi de Inter-Rail, até Itália. Tinha-o conhecido em Lisboa, onde eu acabava o 12.º e ele um curso de engenharia. Nascera em Moçambique e cresceu em Guimarães. Depois de obter o canudo rumou a Braga, onde tentou organizar uma vida. Mas Portugal parecia-lhe cada ver mais pequeno. Um dia emigrou para a Austrália. Tirou uma bacharelato de enfermagem que lhe serviu para trabalhar com os aborígenes australianos, em Timor-Leste e na Arábia Saudita (durante dois anos). Actualmente exerce a sua profissão num hospital de Londres. Quando me convidou, no início do ano corrente, para subir o Quilimanjaro, juntamente com Ana, a namorada do Porto, e Lukeria, uma australiana de origem sino-russa, aceitei. Com entusiasmo.Segunda-feira, Dezembro 05, 2005
Escrever
Aproveito uma pausa, destinada a descansar e a comer, para tomar notas no meu caderninho Moleskine. Ao comprá-lo, em Lisboa, pensei tratar-se apenas de um fétiche de candidatos a escritores, esquecidos de que uma das razões que levou van Gogh ou Hemingway, no início da sua carreira, a comprar cadernos destes é que deviam ser muito baratos. Aliás, era o baixo custo de vida em Paris, no início do século XX, que atraía muitos norte-americanos. Mas no Quilimanjaro descobri o lado prático destes cadernos: facilmente se guardam num bolso das calças ou do casaco; podem recolher muitas notas se escritas a lápis e em letra miudinha; as capas duras e o elástico protegem as folhas. Escrever neles é mesmo escrever um livro. Um livro manuscrito, único, de capa dura, adequado para registar observações súbitas e para resistir ao tempo.





























